Cancro do Pulmão: COVID-19 pode estar a atrasar o diagnóstico

Cancro do Pulmão é uma doença que, todos os anos, é diagnosticada a quatro mil portugueses. O diagnóstico tardio justifica as altas taxas de mortalidade. Sociedade Portuguesa de Pneumologia alerta que o diagnóstico estar a ser mais penalizado com a pandemia de COVID-19.

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Cancro do Pulmão: COVID-19 pode estar a atrasar o diagnóstico
Cancro do Pulmão: COVID-19 pode estar a atrasar o diagnóstico. Foto: DR

O Cancro do Pulmão afeta, a nível mundial, dois milhões de pessoas e representa um dos tipos de cancro com maior índice de mortalidade. Em Portugal a doença é, todos os anos, diagnosticada a quatro mil portugueses. Na grande maioria dos casos, o diagnóstico é tardio o que, em parte, justifica o mau prognóstico e as elevadas taxas de mortalidade associada ao cancro do pulmão, lembra a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP).

No atual cenário de pandemia, em que o acesso aos cuidados de saúde tem estado limitado, nomeadamente ao nível dos Cuidados de Saúde Primários, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia indica que o diagnóstico destes doentes possa estar a ser ainda mais penalizado.

António Morais, Presidente da SPP, referiu que “face ao aparecimento de sintomas sugestivos de cancro do pulmão, os doentes não têm onde se dirigir. O próprio acesso aos exames complementares de diagnóstico continua restrito em muitas unidades de saúde”.

Para o Presidente da SPP tem havido um grande enfoque na contagem diária dos novos casos de COVID-19 e do número de pessoas que morrem por infeção com o novo coronavírus, mas, em contrapartida, tem havido alguma desvalorização em relação a outras doenças onde a urgência do diagnóstico é determinante para os resultados de sobrevivência.

“O cancro do pulmão é um desses casos em que não se pode esperar. À primeira suspeita deve ser feito o despiste e implementado o tratamento necessário. Esperar um mês por uma consulta, pode significar a perda de um doente”, referiu o especialista.

Avanços no tratamento do cancro do pulmão

Nas últimas décadas, tem havido uma evolução ao nível do tratamento do cancro do pulmão. “Embora no cancro do pulmão precoce as técnicas de diagnóstico e terapêutica cirúrgica se tenham desenvolvido muito permitindo alargar o número de doentes elegíveis para cirurgia, é ao nível do cancro avançado que se fizeram sentir os desenvolvimentos mais marcantes. Até há pouco tempo, o único tratamento disponível era a quimioterapia, esclareceu Venceslau Hespanhol, pneumologista do Hospital de São João e representante da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

“Nos últimos anos foi possível, num número importante de tumores, identificar mutações/fusões genéticas no ADN dos tumores, driver mutations, que controlam o desenvolvimento desses tumores e bloqueá-las, obtendo excelentes resultados terapêuticos. Este tipo de mecanismo oncogénico é especialmente frequente em não fumadores”, indicou o pneumologista.

Mas por outro lado, “o desenvolvimento recente da imuno-oncologia tem alterado de forma marcante os resultados terapêuticos do cancro do pulmão. Estes tratamentos atuam ativando o sistema imunitário do doente, desta forma, o próprio sistema imunitário ativado vai destruir e controlar o tumor. Embora nem todos os doentes beneficiem e mesmo que isso aconteça, não seja para sempre, os resultados são muito melhores que os obtidos com os tratamentos tradicionais”.

Na prevenção primária do cancro do pulmão, “o tabaco é, de longe, o fator de risco mais importante no desenvolvimento desta doença, no entanto, outros fatores como o rádon, as fibras de amianto e poluição ambiental, também podem ter um papel relevante“, esclareceu o médico pneumologista.

Mas apesar destes últimos fatores, “em 80% dos casos de cancro de pulmão existe história de exposição ao tabaco. É fundamental, para a prevenção deste tipo de cancro, a redução do consumo ou da exposição ao tabaco”, reforçou Venceslau Hespanhol.

“Quando se fala de consumo de tabaco não se fala apenas de cigarros mas também das novas formas de consumo como o cigarro eletrónico, o tabaco aquecido e, mais recentemente, o Juul. Estas novas formas de tabaco também são causa de doença e são, muitas vezes, o primeiro passo para o consumo de cigarros convencionais”, acrescentou Cristina Matos, representante da Comissão de Trabalho de Pneumologia Oncológica da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

Verifica-se que o consumo dos produtos de tabaco voltou a ser atraente para os jovens, levando a um aumento da taxa de novos fumadores, sobretudo na população estudantil, as estratégias de prevenção primária passam também por “campanhas dirigidas sobretudo a estes grupos etários, de forma a evitar o início do consumo e a vontade de experimentar. É igualmente necessária a implementação e desenvolvimento de Consultas de Apoio Intensivo aos Fumadores tanto nos Cuidados Primários de Saúde como nos Hospitais”, complementou Margarida Felizardo, também representante da Comissão de Trabalho de Tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

Webinar “Dia Mundial do Cancro do Pulmão”

Para assinalar o Dia Mundial do Cancro do Pulmão, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, em parceria com a Sociedade Brasileira de Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), a Associación Latinoamericana de Tórax (ALAT) e a Sociedad Española de Neumología y Cirurgía Torácica (SEPAR), debate, num webinar, no dia 1 de agosto, às 20h00, a implementação do Documento de Consenso sobre a Docência do Tabagismo nas Faculdades de Medicina.

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