Falta planeamento, organização e diálogo no turismo em Lisboa

Bairros históricos de Lisboa têm melhor qualidade de vida devido ao aumento do turismo. Lisboa não sofre de massificação de turismo mas da falta de planeamento e organização, como novos percursos e uma gestão de fluxos de turistas.

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Pressão do turismo nos bairros históricos de Lisboa, Sé de Lisboa
Pressão do turismo nos bairros históricos de Lisboa, Sé de Lisboa. Foto: Rosa Pinto

Numa conferência realizada, hoje, dia 1 de junho, no Citeforma, em Lisboa, dedicada ao turismo na cidade de Lisboa, António Marques Vidal, presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (APECATE), referiu que como qualquer atividade, a atividade turística em Lisboa tem problemas no percurso de crescimento, que se verifica nos últimos anos.

O turismo é uma atividade que envolve diversos intervenientes com interesses muito diversos, e que em muitos casos parecem ser antagónicos. Para o presidente da APECATE, a solução passa por encontrar “uma forma organizada de crescer”, que não coloque em causa as expetativas e os interesses dos agentes envolvidos.

O ritmo de crescimento do número de turistas na cidade, em especial nos bairros históricos, tem vindo a ser considerado, por alguns, como a caminho da massificação, mas para António Marques Vidal a massificação está longe de se verificar na cidade, e a acontecer, então é por haver uma democratização no turismo, o que não é negativo.

“Lisboa é nossa mas é uma cidade do mundo” pelo que deve manter as portas abertas a todos, “independentemente do dinheiro que possua o turista”, pois se Lisboa fechar as portas a alguns então “iremos morrer”, afirmou o presidente da APECATE.

É conhecida a pressão do turismo sobre os designados bairros históricos, como no bairro de Alfama, onde muitas notícias apontam para um mau estar dos moradores tradicionais. Mas o dirigente da APECATE referiu que a situação em Alfama é muito melhor do que a que se vinha a registar nos últimos 15 anos.

No entender de António Marques Vidal houve decisões que levaram a uma maior concentração de turistas no bairro de Alfama, e apontou sobretudo a mudança da atracagem de navios de cruzeiro de Alcântara para Santa Apolónia.

Não havendo ainda um problema de excesso de turistas nos bairros históricos, no entanto, devem ser criados percursos turísticos que levem as pessoas para outros locais, “como aconteceu com os percursos que passam pelo oceanário” no Parque das Nações.

Atualmente, é o momento para se repensar um conjunto de ações sobre o turismo em Lisboa, desde ordenamento das diversas atividades até à regulamentação sobre a ocupação do espaço público e mesmo privado, como é caso do alojamento local. Hoje já “há muita gente a pensar o ‘turismo’, mas não há diálogo entre uns e os outros”, referiu António Marques Vidal, e acrescentou que “o Estado decide, mas não dialoga”, e a Câmara Municipal de Lisboa, também “não ouve, nem os empresários nem os habitantes” da cidade.

O turismo precisa de planeamento e organização, e de decisões assentes em conhecimento, pois não é possível decidir sem estudos. “Não sabemos qual a carga (número de turistas) que Lisboa aguenta. Não sabemos quantas pessoas podem estar no Castelo de São Jorge. Ninguém sabe, porque não há estudos”.

Na conferência, João Neto Azevedo, Diretor do Curso Superior de Turismo do ISLA de Leiria, apresentou um conjunto de dados que, no seu entender mostram que Lisboa não tem muitos turistas, e que o fenómeno da fuga de habitantes dos bairros históricos não tem a ver com o atual crescimento de turistas, pois o fenómeno de perda de população já se vinha a registar há vários anos, sobretudo a partir de 1960, que até 2011 perderam 60% dos moradores.

A título de exemplo, João Neto Azevedo indicou que em Alfama a população diminuiu de 17.597 moradores em 1960 para 3.952 em 2011. Em relação ao número de apartamentos vagos nos bairros históricos o número aumentou enquanto a população foi diminuindo.

Sobre a capacidade hoteleira e de outros estabelecimentos de alojamento temporário, o professor do ISLA apresentou números que, no seu entender, estão em consonância com o crescimento do turismo em Lisboa, e alertou que há uma diminuição média do número de quartos por unidade hoteleira, que neste momento se situa em 65. Uma diminuição que, referiu se deve à necessidade dos investidores baixarem os encargos por quarto, para serem competitivos.

Quanto aos agentes de animação turista em Lisboa, o número têm vindo a aumentar para responder às necessidades, e em 2017 os registos mostram haver 149 operadores marítimo-turísticos e 66 empresas de animação turística, sobretudo microempresas.

João Neto Azevedo apresentou alguns números para comparar, no domínio do turismo, as cidades de Lisboa e de Barcelona, e de Lisboa com Veneza. No seu entender Lisboa apresenta ainda um largo espaço para crescer em todos os parâmetros, logo no número de turistas e em fluxo nos bairros históricos.

A conferência com o título ‘Turismo em Lisboa sem Limites: Progresso ou Retrocesso’ que decorreu, hoje no Citeforma – Centro de Formação Profissional dos Trabalhadores de Escritório, Comércio, Serviços e Novas Tecnologias, foi organizada pelo curso de Técnico Especialista de Gestão de Turismo, do mesmo centro de formação.

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