O interior e os incêndios

Ao longo dos últimos anos têm-se mantido políticas para desertificação humana do interior do país. Estudos competentes não dão lugar a qualquer mudança. Em breve deixaremos de poder visitar as aldeias onde nascemos, por delas já nada restar.

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Já não há cantoneiros nas estradas, nem guardas florestais e aquícolas, nem os baldios que alimentavam os rebanhos. Nas aldeias e em muitas vilas fecharam-se as escolas, retiraram-se os médicos que prestavam cuidados de saúde, fecharam-se os serviços públicos, as farmácias, os correios, as mercearias, as pequenas papelarias, os fornos de pão, as tabernas e os cafés, e o Estado centralizou as compras dos serviços púbicos em Lisboa.

Nas aldeias as gentes deixaram de poder viver, e partiram. As sementeiras dos cereais deixaram de se fazer, os rebanhos sem pastor, desapareceram, as estradas sem cantoneiros ficaram abandonadas, as florestas sem vigia são pasto para as chamas, as hortas e os regadios secaram, a mata cresceu, as casas deixaram de ter telhado, as paredes ruíram e os habitantes passaram a ser as silvas, as giestas e as estevas.

Mas construíram-se autoestradas para ligar cidades e nessas cidades construíram-se grandes universidades e politécnicos, supermercados, e com milhões e milhões de euros construíram-se parques para a indústria e plantaram-se eucaliptos.

Sem gente, as autoestradas estão vazias, as universidades e os politécnicos importam alunos para se manterem, os parques industriais estão abandonados, fecham-se tribunais e hospitais, e nas igrejas deixaram de se realizar missas, batizados e casamentos, e os padres partiram e brevemente já não haverá enterros.

Criaram-se associações de caçadores nas cidades e marcaram os terrenos, do interior, como coutadas, as associações protegeram-se de leis com poderes sobre os proprietários dos terrenos e surgiram novos nómadas que sazonalmente viajam da cidade ao campo, com eles viajam, forçados em gaiolas, cães que são abandonados e enquanto não são vitimados pela fome e doenças tornam-se em vagabundos entre o casario das povoações sem gente.

Mas sazonalmente, no verão, hectares de mata e floresta são pasto de chamas, e ouvem-se novos sons, das labaredas, do assobiar do vento quente, das sirenes dos bombeiros, das hélices dos helicópteros e dos aviões anfíbios ‘canadair’.

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