Os mercados de previsão, como a plataforma Kalshi e Polymarket baseada em criptomoedas, ambas sediadas em Manhattan, Nova Iorque, permitem aos utilizadores a oportunidade de apostar em praticamente qualquer evento do mundo real, desde o trivial até ao monumental, incluindo eleições e grandes conflitos geopolíticos.
O economista David Bieri, da Escola de Assuntos Públicos e Internacionais e da Universidade do Estado da Virgínia explica como os mercados de previsão funcionam e os riscos que representam para os utilizadores como para as estruturas em geral.
Do crescimento do day trading ao uso generalizado de smartphones, a tecnologia reduziu as barreiras para que cidadãos comuns do mercado financeiro pudessem participar de mercados que antes eram acessíveis apenas a especialistas de alto nível ou exigiam muito esforço. Também, a crescente popularidade da “mentalidade de investidor“, contribuíram, no entendimento do economista, para mudanças para o cenário atual.
“Faz parte da gamificação e digitalização dos mercados financeiros, que estão atualmente a transformar tudo”, referiu David Bieri. “Houve uma redução na dificuldade de participar de atividades arriscadas que poderiam levar à morte ou à perda de dinheiro se realizadas clandestinamente. Agora, qualquer pessoa pode participar. Estamos em um momento único em que a tecnologia encontra essa mentalidade”, acrescentou o economista.
Mas, ao contrário da compra de ações, não há investimento em bens. Neste caso, os utilizadores dependem exclusivamente da capacidade de prever um resultado. Para o economista trata-se de uma grande mudança, que vê ligada ao fascínio cultural pela riqueza como uma conquista em si mesma e à capacidade de “ganhar dinheiro enquanto dorme”.
“Agora, qualquer um pode participar desses mercados apenas para ganhar dinheiro, não porque esteja a investir em qualquer coisa”, refere o economista e acrescenta que “não há nenhum risco real envolvido – nenhuma participação muma empresa, nenhuma propriedade de um ativo, nenhuma atividade produtiva subjacente à aposta. Isso é um exemplo clássico de risco moral: quando o utilizador elimina qualquer conexão com o valor intrínseco, a única coisa que resta é a própria aposta. E é aí que os donos das plataformas ficam ricos.”
Os mercados de previsão lucram cobrando uma pequena percentagem por cada transação, que como refere o economista, cria um desalinhamento fundamental: as plataformas não têm incentivo comercial para fiscalizar o uso de informações privilegiadas e têm todos os incentivos para estimular mais negociações, mais contratos e maiores apostas.
“As plataformas têm visto grandes apostas feitas por contas recém-criadas pouco antes de grandes eventos geopolíticos, como os ataques dos EUA ao Irão e a prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o que levanta questões sobre se os investidores poderem ter agido com base em informações privilegiadas”, referiu David Bieri.
A morte do líder iraniano, o aiatola Ali Khamenei, representou talvez o teste mais rigoroso até agora para esses mercados. A Kalshi recusa-se a pagar aos “vencedores” do mercado de 54 milhões de dólares, cujas apostas previam a saída de Khamenei do cargo de Líder Supremo até uma determinada data. A plataforma congelou o mercado, alegando não permitir transações diretamente ligadas à morte.
Para David Bieri, o exemplo ilustra o desafio mais amplo da regulamentação, que luta para acompanhar as plataformas.
“A questão do Estado regulador estar atrasado em relação às fronteiras é exatamente o que impulsiona a inovação”, disse o economistam e acrescentou: “O histórico de um sistema regulatório fragmentado nos EUA agrava o problema, já que diferentes agências reguladoras disputam o domínio sobre determinados setores. Mas a regulamentação das empresas de tecnologia financeira (FinTech) como um todo ainda não está resolvida.”














