Realidade virtual alivia dor e ansiedade em crianças doentes

Tecnologia de Realidade Virtual está a ser usada com sucesso no Hospital Infantil Lucile Packard de Stanford, EUA. O recurso a videojogos em doentes reduz a dor e a ansiedade. A realidade aumentada está também a ser experimentada.

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Realidade Virtual nos cuidados médicos
Realidade Virtual nos cuidados médicos. Foto: DR

Os doentes que dão entrada no Hospital Infantil Lucile Packard de Stanford, EUA, para serem submetidos a procedimentos médicos de rotina, são levados a mergulhar no mar, a atirar com hambúrgueres, a jogar basquetebol com a cabeça e a voar em aviões de papel, isto tudo devido à tecnologia de Realidade Virtual (RV).

A RV começou a ser implementada no Hospital Infantil Lucile Packard para ajudar a aliviar os sentimentos de dor e a ansiedade das crianças doentes, e é hoje um dos primeiros hospitais dos EUA que iniciou a terapia por distração do doente assente na Realidade Virtual.

“Muitas crianças associam o hospital a coisas que consideram stressantes e assustadoras”, referiu o anestesista pediátrico Sam Rodriguez, cofundador do programa de ‘Redução de Ansiedade Infantil pela Inovação e Tecnologia’, conhecido pela abreviatura ‘CHARIOT’, e que utiliza a Realidade Virtual.

Sam Rodriguez referiu, citado em comunicado do hospital: “Estamos a descobrir que a capacidade de distrair os pacientes com ambientes sensoriais totalmente imersivos pode ter um impacto significativo na ansiedade e na dor que experimentam durante alguns procedimentos e tratamentos médicos”.

“Em fevereiro de 2017, Blaine Baxter, de 9 anos de idade, sofreu uma lesão grave no braço quanto competia num go-kart e durante dias sofreu dores fortes mesmo para atividades, como vestir-se. Blaine Baxter começava a “chorar e a gritar com medo, antes dos médicos se aproximarem do seu braço, pelo que tinha de ser sedado”, explicou Tamara Baxter, mãe de Blaine.

Blaine Baxter, “depois de tudo o que tinha passado estava sempre tão cheio de ansiedade, e com a RV houve uma mudança total. Logo que Blaine colocou os óculos, a sedação deixou de ser necessária, e durante as mudanças de roupa, passamos a ouvir, em vez de gritos aflitivos de dor, mas ‘Wow’, estou sob o mar a ver serpentes do mar. Isto é tão ‘giro’. Tem de ver isto!” Descreveu Tamara Baxter.

O uso de VR é uma experiência inovadora para muitos dos pacientes do hospital infantil, explicou a especialista em ‘Vida Infantil’, Veronica Tuss. A equipa em ‘Vida Infantil’ envolve os pacientes em atividades adequadas à idade para ajudar a normalizar o seu tempo no hospital.

A equipa desempenha um papel fundamental para ajudar a diminuir os níveis de stresse dos pacientes antes dos tratamentos médicos. “A RV não é muitas vezes familiar, pelo que é instantaneamente envolvente e incrivelmente perturbadora”, referiu Veronica Tuss. “Se eu estou a preparar uma criança para o seu primeiro tratamento, ela compartilha comigo que não quer ver o que está acontecer durante o tratamento, então eu sei que preciso de uma distração visualmente atrativa”.

A VR, que muitas vezes, parece ser uma coisa intimidante, torna-se de repente numa coisa que as crianças aceitam e exploram, e assim auxilia a minimizar uma experiência negativa de tratamento médico numa positiva.

O projeto CHARIOT

O lançamento da RV em todo o hospital é a mais recente evolução em técnicas de terapia de distração iniciadas por Sam Rodriguez e pelo anestesista Thomas Caruso, cofundador do CHARIOT. Em 2015, os dois anestesistas introduziram a Bedside Entertainment and Relaxation Theatre (BERT), e no início deste ano lançaram o Sevo the Dragon, que é um videoclipe interativo projetado no ecrã BERT e envolve respirar anestesia médica através da máscara, transformando a ação num jogo divertido.

Atualmente, a terapia por RV é usada em grande parte das unidades do Hospital mas os pediatras vão também a implementar a tecnologia durante as imunizações.

A equipa médica do CHARIOT personalizou os auscultadores do sistema de RV com uma cobertura fácil de limpar e um forro descartável para os pacientes imunocomprometidos de modo a prevenir qualquer contágio. O volume do som é ajustável para que a equipa de cuidados de saúde possa comunicar com os pacientes durante os procedimentos, pelo que cada auscultador possui um telefone inteligente e é pré-carregado com conteúdos personalizados e específicos para as crianças no hospital.

A equipe do CHARIOT seleciona cuidadosamente os jogos que exigem movimentos limitados para que as crianças sentadas na cama possam brincar sem girar os corpos ou ficarem emaranhadas nos tubos dos medicamentos a que estão ligados por força do seu estado de saúde.

Desenvolvimento de RV para cuidados de saúde

A equipa do projeto CHARIOT está também a trabalha com empresas produtoras de videojogos para que os jogos comercialmente disponíveis possam ser configuráveis para serem usados em cuidados de saúde. Engenheiros de software sediados no Silicon Valery estão também a desenvolver conteúdos de RV originais e especificamente configurados para o ambiente hospitalar. O primeiro jogo, o Spaceburgers, permite que os técnicos de cuidados de saúde usem um controlador para aumentar o nível de distração durante os momentos com maior stresse, como seja a picada de uma agulha.

O Hospital de Stanford tem em curso uma investigação para quantificar o impacto da RV nos níveis de dor e ansiedade que os pacientes experimentam durante os procedimentos, como o de recolha de sangue, comparando as experiências de pacientes que usaram RV com aqueles que não a usaram.

Sam Rodriguez explicou que “os resultados preliminares da investigação mostraram que as crianças tendem a ser mais cooperativas quando estão envolvidas em RV, apresentam menos movimento, menos medo e, às vezes, menos queixas de dor”.

A equipa do projeto CHARIOT está também a investigar o impacto dos jogos passivos, por exemplo, a observação de peixes a flutuar, em comparação com jogos ativos, para entender se o conteúdo em si afeta os níveis de dor e a ansiedade relatados pelos pacientes.

O Hospital Infantil Lucile Packard é um dos primeiros hospitais a integrar o uso da RV como potencial método de redução da ansiedade e a coloca-lo nos prontuários médicos eletrónicos dos pacientes. Assim as equipas de cuidados de saúde podem determinar qual o conteúdo mais eficaz para certas populações de crianças, de acordo com a idade do paciente, do procedimento médico e do tipo de conteúdo.

Novos conteúdos e novos auscultadores de RV vão estar disponíveis, e especificamente para pacientes com condições crónicas e que estão a usar a RV como técnica de relaxamento para escapar do ambiente hospitalar. Para os pacientes que podem assistir aos pequenos procedimentos médicos o projeto CHARIOT introduziu recentemente a realidade aumentada, uma tecnologia que sobrepõe aspetos visuais sobre a realidade existente.

Sam Rodriguez espera que o programa continue a melhorar as experiências dos pacientes à medida que o próprio programa evolui. “Se pode levar alguém a aliviar o medo, isso faz com que tudo o que estamos a fazer valha a pena”, concluiu o anestesista.

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