Terapia da Fala é muito mais do que a fala

Terapia da Fala envolve múltiplas disciplinas que vão da avaliação e intervenção ao estudo da linguagem oral e escrita ou da deglutição. Inês Tello Rodrigues, Terapeuta da Fala, esclarece alguns dos aspetos ligados a esta área da saúde.

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Inês Tello Rodrigues, especialista em terapia da fala
Inês Tello Rodrigues, especialista em terapia da fala. Foto: © DR

Quais as suas áreas de intervenção? Quais as suas competências e funções?

A Terapia da Fala representa uma profissão de saúde em que a fala é apenas uma pequena parte da extensão da sua intervenção.

Se há uns anos o desconhecimento da população era evidente relativamente à intervenção de um Terapeuta da Fala, presentemente, a pluralidade das áreas de intervenção deste profissional começa a ganhar um destaque e um conhecimento alargado na comunidade.

Evitando as definições formais, podemos dizer que um Terapeuta da Fala pode intervir ao nível da avaliação, intervenção e estudo científico de áreas tão díspares como a linguagem oral e escrita, a fala, a voz, a comunicação não verbal ou a deglutição.

Esta intervenção pode ocorrer desde o recém-nascido ao adulto idoso, sempre com o objetivo comum de otimizar as capacidades de comunicação e/ou deglutição, promovendo assim a participação e qualidade de vida da pessoa. Falamos, por isso, numa atuação multidimensional, que se norteia pelas diretrizes da Organização Mundial de Saúde que define a saúde não só como a ausência de doença mas sim como um estado de completo bem-estar físico, mental e social. É também uma das profissões de saúde que, proporcionalmente ao seu número de profissionais, mais publica e divulga material de informação científica.

Porquê um dia europeu da Terapia da Fala?

A 6 de março comemora-se por toda a Europa o Dia Europeu da Terapia da Fala. Esta data foi criada pelo Comité Permanente de Ligação dos Terapeutas da Fala e Logopedistas da União Europeia (CPLOL) com o objetivo de aumentar a visibilidade da profissão, sensibilizando a comunidade para as perturbações da comunicação e da deglutição.

Esta entidade define todos os anos um tema diferente, sempre relacionado com as áreas de intervenção do Terapeuta da Fala, e que pretende ser uma oportunidade de aprofundar a informação da comunidade e das mais variadas equipas de profissionais, tanto nas áreas da saúde como da educação. Em 2017, o tema o definido por este Comité foi a Disfagia.

Mote de 2017: Disfagia

O que é a disfagia?

A disfagia (do grego dýs – dificuldade e phageĩn – comer) é uma perturbação na deglutição, ou seja, é o nome dado à dificuldade em engolir alimentos (sólidos ou líquidos). Esta dificuldade pode ocorrer desde o trajecto inicial do alimento, dentro da boca, até à sua transição para o esófago e para o estômago.

Existem vários tipos de Disfagia consoante o local onde ocorrem as dificuldades em engolir.

Como se manifestam estas alterações na Deglutição?

A pessoa com disfagia pode apresentar dificuldade em mastigar, em preparar e manter o alimento dentro da boca, de engolir, ou apresentar dor a engolir (odinofagia).

São sinais de alerta de uma alteração da deglutição:

– Voz alterada ou rouca após a alimentação,
– Sensação de alimento preso na garganta,
– Engasgamento frequente ou falta de ar durante a alimentação,
– Tosse frequente durante e após as refeições,
– Perda de peso acentuada num curto período de tempo,
– Infeções respiratórias recorrentes.

Quais as consequências da Disfagia?

A disfagia representa um sintoma que pode trazer alterações graves ao nível pulmonar e nutricional da pessoa, como a desnutrição, desidratação e pneumonias de aspiração (entrada acidental de um alimento para os pulmões). As dificuldades em deglutir também afetam a socialização e a autoimagem do indivíduo e limitam, frequentemente, o prazer associado à refeição, com consequências muito negativas para a qualidade de vida.

Para além das referidas complicações, a disfagia repercute-se no aumento da mortalidade e no aumento dos custos globais de saúde. A título de exemplo, mais de 50% de todas as pessoas que sofreram um AVC apresentam dificuldades graves na deglutição, em fase aguda, e a prevalência de Disfagia pode manter-se nos 15%, mesmo após 3 meses de evolução do AVC.

Que tipos de tratamento existem?

A intervenção em casos de Disfagia deverá ser em equipa e contar, entre outros, com intervenção médica, de um terapeuta da fala e de um nutricionista para avaliação e intervenção nas alterações na deglutição. Esta interligação multidisciplinar pode tomar várias formas e é fundamental para assegurar o bem-estar físico e nutricional da pessoa com disfagia.

Qual o papel do Terapeuta da Fala na Disfagia?

O terapeuta da fala pode efetuar uma avaliação da deglutição orofaríngea para identificar quais as alterações e as dificuldades existentes. Ajuda a definir com a equipa médica e de enfermagem se é segura a alimentação por via oral (pela boca) ou se há necessidade de uma via alternativa de alimentação, como por exemplo, uma sonda nasogástrica.

Este profissional pode igualmente recomendar estratégias específicas para mudar a consistência e a quantidade dos alimentos ingeridos, alterar a postura da pessoa durante e após as refeições e efetuar um plano de exercícios especificamente indicados para garantir uma deglutição segura e eficaz.

Mensagem final: Apesar do que o nome sugere, a Terapia da Fala é muito mais do que a fala!

Autora: Inês Tello Rodrigues (inestello@neuroser.pt) é especialista em terapia da fala no NeuroSer, centro de diagnóstico e terapias para Alzheimer e outras demências.

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