Diáspora portuguesa formaliza parceria estratégica e reforça ação social em França

Daniel Bastos, Historiador e Escritor
Daniel Bastos, Historiador e Escritor. Foto: DR

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas no estrangeiro reside na sua reconhecida capacidade empreendedora e no enraizado sentido de solidariedade e benemerência. Esta matriz identitária tem sido reiteradamente confirmada pelos percursos de inúmeros compatriotas que, a partir da diáspora, edificam empresas de sucesso e promovem iniciativas de elevado impacto económico, cultural e social, contribuindo simultaneamente para a projeção internacional de Portugal.

Entre os empresários portugueses da diáspora – hoje crescentemente valorizados como ativos estratégicos na promoção externa do país – destaca-se o percurso do guardense João Pina, conhecido em França por Jean Pina, uma das figuras mais dinâmicas e solidárias da comunidade luso-francesa. Atualmente administrador do Grupo Jean Pina, sediado na região parisiense e constituído por seis empresas com atividade nos setores da construção civil, limpeza e reciclagem de resíduos, Jean Pina afirma-se como um dos mais relevantes empresários luso-franceses. Todavia, o êxito alcançado no plano empresarial tem sido, de forma consistente, acompanhado por um inequívoco compromisso social em prol dos mais vulneráveis, tanto em Portugal como em França.

Esse compromisso ganhou expressão institucional em novembro de 2019, com a criação da Fundação Nova Era Jean Pina, cuja missão se sintetiza no lema “Solidariedade em Movimento”. Desde então, a Fundação tem desenvolvido uma ação estruturada e continuada de apoio social, promovendo projetos dirigidos a populações particularmente vulneráveis – idosos, crianças institucionalizadas, desempregados e famílias em situação de fragilidade – contribuindo para a coesão social e para a salvaguarda da dignidade humana nos dois países.

Foi neste enquadramento que, no passado sábado, 21 de fevereiro, o presidente da Fundação celebrou um protocolo de colaboração estratégica com a Associação Soleils de Paris, que tem vindo a desenvolver um notável trabalho social junto de pessoas em situação de vulnerabilidade na capital francesa. Com uma intervenção centrada na ação social direta, a associação organiza, na última sexta-feira de cada mês, ações de rua que incluem a distribuição de refeições quentes, vestuário e bens essenciais em várias zonas de Paris.

Cerimónia de assinatura do protocolo de colaboração estratégica entre a Fundação Nova Era Jean Pina, presidida pelo empresário luso-francês Jean Pina (à esq.), e a Associação Soleils de Paris, presidida pela jovem lusodescendente Eleonor Patrício (à dir.).
Cerimónia de assinatura do protocolo de colaboração estratégica entre a Fundação Nova Era Jean Pina, presidida pelo empresário luso-francês Jean Pina (à esq.), e a Associação Soleils de Paris, presidida pela jovem lusodescendente Eleonor Patrício (à dir.). Foto: DR

A relevância do trabalho da associação — composta por cerca de vinte voluntários, entre os quais portugueses e lusodescendentes, e presidida pela jovem lusodescendente Eleonor Patrício — ganha particular significado à luz do contexto socioeconómico francês. Segundo dados divulgados pelo INSEE, em 2023 a taxa de pobreza em França atingiu 15,4%, o valor mais elevado desde 1996, sendo que na área metropolitana da Grande Paris os indicadores superam a média nacional. Trata-se de um cenário que exige respostas complementares às políticas públicas, envolvendo a sociedade civil organizada e o voluntariado.

Neste contexto, a assinatura do protocolo entre a Fundação Nova Era Jean Pina e a Associação Soleils de Paris reveste-se de particular importância. Não se trata de um gesto meramente simbólico, mas da formalização de uma parceria estruturada, que garante previsibilidade, continuidade e enquadramento institucional ao apoio concedido. Através da oferta regular de donativos em espécie – designadamente bens alimentares, produtos de higiene e artigos de primeira necessidade – a Fundação reforça a capacidade operacional da associação, permitindo-lhe ampliar e consolidar a sua intervenção junto das populações mais vulneráveis. No próprio ato de assinatura do protocolo foram já entregues trinta sacos contendo bens alimentares e produtos de higiene e limpeza, que serão distribuídos pelos voluntários da associação a pessoas em situação precária, incluindo cidadãos em situação de sem-abrigo na capital francesa. Este primeiro gesto concreto evidencia a natureza pragmática e operacional da parceria agora estabelecida.

Num país que acolhe uma comunidade portuguesa estimada em cerca de um milhão de pessoas – a maior da Europa e uma das mais expressivas comunidades estrangeiras em França – iniciativas desta natureza assumem um significado que ultrapassa o plano assistencial. Elas afirmam a maturidade cívica da diáspora portuguesa e a sua capacidade de organização, demonstrando que o sucesso empresarial pode e deve ser acompanhado por responsabilidade social.

A celebração deste protocolo constitui, assim, um exemplo paradigmático do papel estruturante que a diáspora e os lusodescendentes desempenham nas sociedades de acolhimento, sem nunca romperem os laços com a pátria de origem. Ao mobilizar recursos, redes e capital humano em prol dos mais vulneráveis, a comunidade portuguesa projeta uma imagem de Portugal como nação solidária, empreendedora e universalista. Num tempo marcado por desigualdades persistentes e desafios sociais complexos, a ação concertada de fundações, associações e voluntários de matriz lusa reafirma que a diáspora não é apenas memória ou identidade: é também compromisso ativo, responsabilidade partilhada e construção concreta de pontes de solidariedade entre povos e territórios.

Autor: Daniel Bastos, Historiador e Escritor