O sinal secreto dos miguelistas e a sua rede clandestina após 1834

Paulo Freitas do Amaral, Professor de História
Paulo Freitas do Amaral, Professor de História. Foto: DR

O sinal secreto dos miguelistas no século XIX permanece como uma das facetas mais discretas e fascinantes da memória política portuguesa. A Ordem de S. Miguel da Ala, refundada em 1828, antes mesmo de eclodir a guerra civil, organizava-se em núcleos dispersos pelo país, chamados capítulos, permitindo que o movimento legitimista se mantivesse vivo, nobre e religioso, mesmo quando confrontado com adversários e perigos. Entre os sinais de reconhecimento, o mais eficaz e simples era o uso dos forros vermelhos nos casacos, cor que remetia diretamente ao brasão da ordem, evocando coragem, fidelidade e sacrifício. Após 1834, com a derrota militar e a passagem do miguelismo à clandestinidade, estes forros tornaram-se mais do que um detalhe de vestuário: eram marcas de pertença, laços de confiança entre famílias do Minho, como os da Casa do Guardal e da Casa do Entreposto, em Guimarães, que mantinham estes sinais discretos de reconhecimento entre aliados.

A simples observação de um forro vermelho podia bastar para identificar um aliado sem necessidade de palavras, um gesto carregado de significado, discreto, que mantinha viva a identidade política. A ordem estruturava-se em três estados – Cavaleiros, Comendadores e Grandes Cruzes –, refletindo a tradição da cavalaria adaptada aos tempos modernos, hierárquica e funcional, capaz de manter disciplina e coesão mesmo sob ameaça liberal. Do outro lado, os liberais, organizados em Lojas sob a inspiração da maçonaria, seguiam o seu próprio modelo clandestino, dividido em Aprendizes, Companheiros e Mestres, provando que a sobrevivência de ambos os campos dependia da força de redes de confiança e sinais internos cuidadosamente mantidos.

O forro vermelho não era mero capricho nem ostentação; era um código de resistência, um modo silencioso de afirmar que se pertencia a uma tradição que não se apagava com a derrota. Famílias nobres do Minho, mantendo vivas estas práticas, tornaram-se guardiãs de uma memória secreta, transmitida de geração em geração. Assim, mesmo quando os liberais consolidaram o poder, os sinais miguelistas continuaram a existir, discretos mas carregados de significado, lembrando que, para aqueles que acreditavam na legitimidade da causa, a ordem não era apenas um título, mas uma maneira de viver e de resistir.

Autor: Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor