
No debate “Limites e Avanços” realizado pelo Instituto de Matéria e Sistemas (IMS) do Instituto de Tecnologia da Geórgia (Georgia Tech), em 27 de janeiro de 2026, que reuniu clínicos, engenheiros e especialistas em dados foi abordado o motivo das tecnologias médicas promissoras não se traduzirem muitas vezes em prática clínica.
O debate moderado por Eric Vogel, diretor executivo da IMS, e onde participaram diversos especialistas e investigadores, explorou como a inovação, a regulamentação, a economia e as realidades clínicas se entrecruzam para moldar o futuro dos dispositivos médicos.
“Cerca de 75% das startups de dispositivos médicos nunca alcançam sucesso comercial ou chegam ao mercado, e algumas estimativas do setor apontam para números ainda maiores”, disse Eric Vogel, e acrescentou: “Mesmo aquelas que chegam ao mercado muitas vezes não conseguem uma adoção significativa. Isso pode ocorrer porque os tecnólogos otimizam para plataformas que estarão disponíveis daqui a cinco ou dez anos e são recompensados pela novidade, enquanto os médicos exigem confiabilidade, interpretabilidade e resultados que se sustentem com pacientes reais, fluxos de trabalho reais e responsabilidade real.”
No debate, os participantes examinaram a tensão entre a inovação rápida e a segurança clínica, e observaram que o nível de invasividade determina, muitas vezes, o nível de ousadia que os inovadores podem ser.
“Devemos lembrar que na medicina – e especialmente quando lidamos com vidas humanas – existe uma assimetria significativa no dano que pode ser causado”, disse Lokesh Guglani, pneumologista pediátrico e médico-investigador do Children’s Healthcare of Atlanta. “Mesmo uma pequena alteração ou uma falha no projeto de um dispositivo médico pode ter repercussões significativas para os pacientes e gerar responsabilidade para instituições e profissionais de saúde”, acrescentou o investigador que participou do debate.
Matthew Flavin, professor assistente da Escola de Engenharia Elétrica e de Computação e John Duke acrescentaram que o conservadorismo excessivo, particularmente em relação a dispositivos vestíveis não invasivos, também pode retardar avanços potencialmente transformadores.
Os participantes do painel concordaram que a tecnologia inovadora por si só não é suficiente para ser adotada em clínica. Usabilidade, adequação ao fluxo de trabalho e eficiência em termos de tempo geralmente determinam se os médicos irão adotar um determinado dispositivo. Uma das conclusões é de que ferramentas que exigem calibração demorada ou que sobrecarregam a agenda já apertada do médico raramente têm sucesso. Mesmo quando uma tecnologia se integra bem, barreiras de reembolso podem impedir que a mesma possa vir a ser adotada em clínica.
“Muitas tecnologias surgem, mas se a clínica as utiliza sem ser reembolsada pelo tempo gasto, isso cria um aperto”, referiu Lokesh Guglani, citado pelo Georgia Tech.
Além disso, as restrições económicas também influenciam quem pode vir a beneficiar da inovação. Crianças com doenças raras, sobreviventes de AVC e outros grupos de pacientes pequenos ou heterogéneos têm, muitas vezes, dificuldade em atrair investidores, mesmo quando suas necessidades são urgentes.
No debate foi também abordado o papel duplo das normas regulatórias e de produção. Os requisitos das Boas Práticas de Produção garantem uma produção consistente e segura, mas obrigam as equipas de desenvolvimento a finalizar os projetos antes do tempo ideal, aumentando os custos e retardando as iterações. Esses requisitos protegem os pacientes, mas também funcionam como um filtro económico para muitas tecnologias em estágio inicial.
Outra das abordagem dos participantes no debate foi na Inteligência Artificial (IA) e a formação de futuros inovadores. Apesar da enorme quantidade de dados de saúde, muitas áreas clinicamente importantes ainda carecem de dados. Dispositivos vestíveis, como relógios inteligentes, podem ajudar a preencher essas lacunas, mas os modelos de IA continuam limitados pela qualidade dos dados de entrada.
Sobre a preparação da próxima geração de inovadores em tecnologia médica, os participantes do painel enfatizaram a importância da “alfabetização em interfaces”, ou seja, a capacidade de colaborar além das fronteiras disciplinares e entender como as decisões de design se refletem em ambientes clínicos reais.
“É realmente preciso ser interdisciplinar”, disse John Duke, e concluiu: “Claro que o que faz as coisas funcionarem nem sempre é o conhecimento da área, mas sim o papel da pessoa ou sua conexão com o sistema.”













