Mais do que pele seca, uma doença inflamatória com impacto profundo na vida dos doentes

Mais do que pele seca, uma doença inflamatória com impacto profundo na vida dos doentes
Mais do que pele seca, uma doença inflamatória com impacto profundo na vida dos doentes

A 14 de setembro assinala-se o Dia Mundial da Dermatite Atópica. Frequentemente reduzida a “pele seca” ou a um problema estético, a dermatite atópica é, na verdade, uma doença complexa, de base imunológica, com um impacto profundo na qualidade de vida dos doentes e das suas famílias.

Trata-se da doença inflamatória crónica cutânea mais comum, caracterizada por pele seca (xerótica) e com prurido (comichão) intenso, que resulta de uma interação complexa entre suscetibilidade genética, disfunção da barreira cutânea e desregulação do sistema imunitário. Sobre este terreno atuam depois fatores ambientais que desencadeiam ou agravam os surtos, pelo que a doença evolui tipicamente por períodos de agravamento que alternam com fases de estabilidade.

Em Portugal, estima-se que a dermatite atópica afete entre 2 a 5% da população em geral e cerca de 15% das crianças e adolescentes, sendo que 34 mil portugueses apresentam dermatite atópica moderada a grave.

O sintoma mais marcante da doença e, muitas vezes, o mais debilitante é o prurido, intenso que agrava ao final do dia e durante a noite e que conduz à coceira compulsiva, capaz de originar feridas e infeções. São também típicas as lesões eczematosas caracterizadas por vermelhidão, descamação e, nos surtos, exsudação (lesões húmidas) e crostas. A localização das lesões varia com a idade, predominando na face e nas superfícies extensoras dos membros no bebé, e nas pregas de flexão, como cotovelos e joelhos, na criança mais velha e no adulto, sendo que neste último também a face e as mãos podem ser particularmente afetadas.

Embora possa surgir em qualquer idade, o início é, na larga maioria dos casos, precoce: cerca de 45% dos casos manifestam-se nos primeiros seis meses de vida, 60% no primeiro ano e 80 a 90% antes dos cinco anos. Isto não significa, contudo, que se trate de uma doença exclusiva da idade pediátrica. A dermatite atópica pode persistir na idade adulta ou até, cada vez mais, surgir pela primeira vez nesta fase.

Esta elevada prevalência acarreta também um elevado impacto sobre o dia a dia. A comichão persistente e a privação de sono afetam a concentração, o desempenho escolar e profissional e o equilíbrio emocional, sobretudo na doença moderada a grave, sendo frequentes distúrbios do sono, ansiedade e depressão. Importa referir que este impacto também se repercute na família/cuidador, não só do ponto de vista psicológico, mas também pelo absentismo laboral muitas vezes associado.

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseando-se no prurido intenso e na observação de lesões características, e deve ser complementado pela avaliação de outras doenças alérgicas ou atópicas, como a asma, a rinite e a alergia alimentar. Não existe um teste laboratorial que, por si só, confirme a doença; o estudo alergológico pode ser útil para identificar sensibilizações e fatores desencadeantes em doentes selecionados, mas não substitui a avaliação clínica.

Do ponto de vista terapêutico, o principal desafio é atingir e manter o controlo sustentado da doença. Felizmente, na última década assistimos a uma mudança do panorama no tratamento da dermatite atópica. À base do tratamento (os emolientes, os corticosteroides tópicos e os inibidores tópicos da calcineurina) juntaram-se as terapêuticas dirigidas para os casos mais graves, com fármacos biológicos, como o dupilumab, o tralokinumab e o lebrikizumab, e os inibidores das JAK, como o abrocitinib, o baricitinib e o upadacitinib. As recomendações internacionais mais recentes defendem uma abordagem proativa e personalizada, orientada para o controlo a longo prazo e não apenas para tratar cada surto. O desafio que permanece é garantir o acesso equitativo de todos os doentes a estas opções e a sua correta seleção, caso a caso.

Apesar de tudo o que hoje se sabe, a dermatite atópica continua rodeada de mitos. Não é contagiosa, não resulta de falta de higiene, não é “apenas pele seca” nem um problema estético, e não desaparece obrigatoriamente com a idade. Persiste, também, a ideia de que dietas de exclusão resolvem a doença quando, na ausência de uma alergia alimentar comprovada, as recomendações desaconselham dietas de eliminação injustificadas. Importa ainda esclarecer que o stress pode agravar a doença, mas não é a sua causa: a dermatite atópica é, na sua essência, uma doença inflamatória de base imunológica.

O Dia Mundial da Dermatite Atópica torna-se, assim, uma excelente oportunidade para dar visibilidade a uma doença ainda subvalorizada, combater o estigma que a acompanha, promover o diagnóstico e o encaminhamento atempados e recordar que existe, hoje, um conjunto de tratamentos capaz de controlar bem a doença. O objetivo é claro: que nenhuma pessoa com dermatite atópica tenha de aceitar a comichão intensa diária, as noites sem dormir e o isolamento como inevitáveis, porque já não o são.

Autoras: Sofia Campina, Rita Brás, Sara Regalo – Grupo de Interesse de Alergias Cutâneas da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica