A cetamina pode ser impulsionadora no combate da fadiga crónica

A cetamina pode ser impulsionadora no combate da fadiga crónica
A cetamina pode ser impulsionadora no combate da fadiga crónica. Foto: Rosa Pinto

A cetamina, um anestésico que vem sendo usado há algumas décadas e que é um tratamento de ação rápida para depressão grave, também pode oferecer, a algumas pessoas, alívio rápido da fadiga crónica. A conclusão é de um estudo liderado por investigadores da Rutgers Health University e dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), EUA.

Os investigadores verificaram que os efeitos da cetamina num ensaio clínico com 10 participantes superaram um placebo ativo que, inesperadamente, apresentou a própria ação antifadiga. No entanto, os participantes que receberam uma única infusão de baixa dose de cetamina experimentaram um aumento de energia suficiente para justificar estudos adicionais.

“A fadiga sempre foi ignorada porque é muito difícil entender o que a causa”, disse Leorey Saligan, autora sénior do estudo, da Escola de Enfermagem de Rutgers e membro do Programa de Prevenção e Controlo do Cancro do Instituto de Cancro de Rutgers.

A fadiga crónica é um esgotamento persistente que deixa as vítimas sem a energia necessária para o trabalho, a vida familiar e as atividades básicas, e não há é um descanso extra que resolve o problema.

Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças, nos EUA, estimam que 3,3 milhões de adultos americanos sofrem de fadiga crónica. Uma condição que é mais acentuada em indivíduos em tratamento contra o cancro e nos que sofrem de doenças crónicas. A maioria dos pacientes com cancro que concluem a terapia primária desenvolve a síndrome, que geralmente dura um ano ou mais. A fadiga crónica também afeta pessoas com fibromialgia, lúpus e síndrome da fadiga crónica.

A abordagem padrão para lidar com a fadiga crónica é o exercício, que funciona bem para os pacientes que conseguem motivar-se para iniciar um programa e segui-lo por algumas semanas, no entanto, a maioria não o consegue.

Investigações anteriores concluíram que as concentrações sanguíneas de um recetor de glutamato chamado mGluR5 previam a fadiga crónica – ou sua ausência – em pacientes com cancro que concluíam a terapia oncológica. A cetamina bloqueia os recetores de glutamato, tornando foi lógico testar se essa via poderia ser um alvo para um possível tratamento.

No estudo que envolveu 10 participantes com fadiga crónica durante a sobrevivência ao cancro, fibromialgia, síndrome da fadiga crónica ou lúpus. Cada um recebeu uma injeção de cetamina e, duas semanas depois, uma injeção de um sedativo chamado midazolam, que serviu como comparador ativo.

Antes do início das injeções, os investigadores definiram um limiar claro para um resultado “positivo” que justificasse a realização de novos ensaios: uma redução de 20% nos níveis de fadiga em tempo real três dias após a infusão de cetamina. Os níveis reais de fadiga em tempo real foram, em média, 21% inferiores aos níveis pré-injeção três dias após a administração da cetamina. O efeito mais significativo surgiu 24 horas após a injeção, quando a fadiga em tempo real diminuiu em quase 39%.

O desempenho da cetamina não foi significativamente melhor do que o do midazolam, que também apresentou relatos de menor fadiga, apesar de não ser usado como tratamento para essa condição. Isso pode indicar que o midazolam teve um efeito terapêutico ou que os níveis de fadiga flutuam naturalmente.

Mas mesmo que a cetamina se mostre eficaz, o investigador não a vê como um medicamento para uso a longo prazo. O uso mais promissor, segundo ele, seria como uma ponte, um breve aumento de energia que motiva os pacientes a adotarem outras estratégias que proporcionem alívio duradouro, como exercícios físicos.

“A ideia é estimular ou reconfigurar o cérebro para que as pessoas se sintam mais motivadas e capazes de participar de tratamentos comprovadamente eficazes na redução da fadiga”, disse o investigador.

A cetamina não está mais patenteada e já foi estudada para outras condições de saúde, como a depressão. Existe uma versão em spray nasal para depressão, a esketamina, e empresas farmacêuticas estão desenvolvendo compostos de segunda geração com menos efeitos colaterais. Por isso, para os investigadores há muitas oportunidades promissoras para continuar e expandir esta linha de investigação.