O número de pessoas que se sentem sozinhas tem vindo a aumentar e estimativas apontam que no mundo pelo menos uma em cada seis pessoas sente-se sozinha. Esta realidade considerada preocupante já levou algumas autoridades de saúde pública a declararem existir uma “epidemia de solidão ”.
As conclusões de um novo estudo global publicadas na revista “Lancet Regional Health” aponta para uma solução inovadora, que assenta na prescrição social baseada na natureza, com os profissionais de saúde a prescrever atividades como jardinagem, caminhadas ou observação de pássaros, uma terapia que pode reduzir significativamente a solidão.
O estudo conclui que passar tempo na natureza com outras pessoas funciona melhor, principalmente para os mais solitários.
“Houve muita paixão pelas prescrições baseadas na natureza, mas poucas evidências”, disse a autora correspondente Jill Litt, professora de saúde ambiental na CU Boulder e investigadora principal do projeto RECETAS, que estudou um modelo de prescrição social chamado Amigos na Natureza em 1.200 adultos em seis cidades da Europa, América Latina e Austrália. “Agora temos ensaios clínicos randomizados que mostram que isso funciona e que os impactos são duradouros”, afirmou Jill Litt.
A solidão explicou a investigadora, não é o isolamento físico, mas uma “desconexão subjetiva entre as expectativas que uma pessoa tem dos relacionamentos sociais e a sua realidade”.
“Já ouvi pessoas descreverem como uma sensação de nó no estomago, como se algo simplesmente não estivesse bem”, referiu Jill Litt. “Pode estar em uma sala cheia de gente e sentir-se sozinho.”
Estudos mostram que a solidão crónica pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, demência, AVC, depressão e ansiedade. A solidão também pode sobrecarregar financeiramente o sistema de saúde, já que as pessoas que sofrem de solidão tendem a consultar o médico com mais frequência (às vezes em busca de contato humano) e são mais propensas a procurar as urgências com queixas vagas nas tardes de sexta-feira. Um fenómeno conhecido como “síndrome da sexta-feira à tarde”.
Devido ao estigma, as pessoas muitas vezes evitam em admitir ou não reconhecem que estão sozinhas e presumem que os sintomas físicos que sentem se devem a outra coisa.
“Quando os médicos começam a investigar as causas principais, descobrem que a solidão é um fator importante e que as soluções podem estar fora do sistema médico tradicional”, referiu disse Jill Litt, que também é investigadora no Instituto de Saúde Global de Barcelona.
O projeto “Re-imagining Environments for Connection and Engagement: Testing Actions for Social Prescribing in Natural Spaces” (RECETAS) foi lançado em 2021 com apoio de 5,6 milhões de dólares da União Europeia. Desde então, realizou ensaios clínicos randomizados em Barcelona, na Espanha; Praga, na República Tcheca; e Helsinquia, na Finlândia; e estudos quase-experimentais em Marselha, na França; Cuenca, no Equador; e Melbourne, na Austrália.
Até agora, todos os estudos apresentaram resultados promissores. O mais recente, concentra-se na região de Barcelona, onde os índices de solidão duplicaram nos últimos anos, à medida que a convivência multigeneracional se tornou menos comum e as famílias se dispersaram.
O estudo na região de Barcelona incluiu 320 idosos solitários de 12 bairros de baixo rendimento, e metade dos participantes foi colocada num grupo de 8 a 10 pessoas, que passava duas horas por semana, durante nove semanas, a realizar atividades como jardinagem, observação de pássaros ou programas de arte em contato com a natureza, sob a orientação de dois facilitadores treinados. As atividades em grupo foram escolhidas a partir de um menu criado em conjunto pela comunidade local. A outra metade recebeu o mesmo menu de atividades gratuitas e de fácil acesso, em contato com a natureza, para que o pudessem realizar individualmente.
Os investigadores descrevem que ambas as estratégias funcionaram. Os participantes apresentaram, em média, uma redução de 11% nos índices de solidão após três meses; 12% após seis meses; e 17% após um ano. Para os que apresentavam menor bem-estar emocional no início do estudo, a intervenção em grupo teve resultados significativamente melhores.
“Não só funcionou, como os efeitos foram duradouros”, disse a investigadora, observando que muitos participantes continuam com atividades ao ar livre.
A investigadora afirmou que a natureza, com seus sons, cheiros e imagens vívidos, pode atuar como um “facilitador adicional”, ampliando os benefícios terapêuticos e criando um espaço seguro para apoiar a formação de laços sociais. Alguns participantes disseram-lhe: “a natureza não te julga” e “é difícil ficar com raiva na natureza”.
“Nos passeios que fizemos, aprendi a contemplar tudo com mais atenção, a estar presente com os sons, a concentrar-me”, relatou uma participante. “Conheci pessoas. Compartilhei experiências. Foi maravilhoso.”
Para além dos benefícios comprovados de estar sozinho na natureza aliviar o stress e a fadiga mental e promover a motivação, também pode criar novas memórias.
“Estar em contato com a natureza cria uma espécie de reserva de calma à qual podemos recorrer mais tarde na vida, em momentos de stress”, disse Louise Chawla, psicóloga ambiental e professora emérita da CU Boulder. “Não é apenas revigorante quando você está em um lugar, mas também quando você o revisita na memória.”
Louise Chawla foi coautora de outro artigo recentemente que com Jill Litt defendeu que se deve dar mais atenção ao papel que a natureza pode desempenhar no fomento das conexões sociais.
Assim, Louise Chawla considera que é preciso “pensar em termos mais amplos sobre como podemos criar atividades de cura em grupo em locais como parques e jardins comunitários”.
Entretanto as agências de saúde pública em Espanha já começaram a reconhecer o modelo Amigos na Natureza como uma prática recomendada para combater a epidemia de solidão.
“Temos natureza em nossas cidades e investimentos em infraestrutura verde”, disse a investigadora. “Agora precisamos de um mecanismo para conectar esses recursos aos nossos sistemas de saúde, para oferecer cuidados centrados na pessoa que aproveitem o poder da natureza para a cura e o bem-estar.”















