Antibióticos aumentam risco de cancro do cólon

Estudo de investigação mostrou haver uma ligação entre o consumo de antibióticos e o aumento do risco de cancro do cólon. Os investidores concluíram que a melhor maneira de evitar o risco é através da prescrição mais cautelosa de antibióticos.

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Laboratório
Laboratório. Foto: DR

Investigadores do Johns Hopkins Kimmel Cancer Center concluíram que tomar um único ciclo completo de antibióticos pode aumentar, ainda que ligeiramente, o risco de desenvolver, passada uma década, cancro do cólon. Os investigadores não concluíram por qualquer efeito de risco para o cancro retal.

Os autores do estudo destacam nos resultados publicados, na edição de 20 de agosto da revista médica Gut, a necessidade do uso criterioso dos antibióticos, que são frequentemente e indevidamente prescritos em excesso.

“A principal mensagem deste estudo é a importância da administração de antibióticos: não tratar infeções virais comuns com antibióticos, usá-los pelo menor período de tempo possível e usar antibióticos direcionados, em vez de antibióticos de amplo espectro”, referiu a líder do estudo, Cynthia L. Sears do Johns Hopkins Kimmel Cancer Center, e acrescentou: “Esta investigação aumenta a nossa compreensão de que estes fármacos podem ter efeitos significativos fora do seu alvo, incluindo a indução de doenças crónicas”.

A investigadora advertiu que os estudos que desenvolveram com base nos registos médicos não são projetados para demonstrar causa e efeito, mas para identificar possíveis associações entre fatores de risco e doença. Mas observou que, pelo facto do banco de dados conter tantas informações específicas durante um longo período de tempo, os autores do estudo concluíram que a explicação mais provável para o aumento do risco de cancro de cólon é a mudança radical que os antibióticos provocam no microbioma, a coleção de bactérias que vive nos intestinos.

Os antibióticos são amplamente prescritos em todo o mundo para tratar infeções bacterianas, e há evidências crescentes, incluindo vários estudos de base de dados epidemiológicos, que ligam o uso desses medicamentos ao risco de cancro colorretal, explicou Cynthia L. Sears e Jiajia Zhang.

Os investigadores referiram que estudos anteriores não controlaram fatores de risco para cancro colorretal (como história familiar, história de obesidade, tabagismo, uso de álcool e diabetes). Ao separar dados sobre cancro de cólon e reto, e o pouco número de participantes do estudo não permite produzir conclusões significativas.

Para conhecer sobre a associação entre antibióticos e cancro colorretal, Cynthia L. Sears e Jiajia Zhang e outros investigadores extraíram dados do Clinical Practice Research Datalink (CPRD), um dos maiores bancos de dados de registos médicos eletrónicos de registos clínicos “anónimos”, informações que não permitem identificar pacientes individuais.

O CPRD detém informações sobre mais de 11 milhões de pacientes no Reino Unido, incluindo dados sobre prescrição de medicamentos e diagnósticos, tornando este estudo o primeiro estudo de base populacional para examinar a associação de exposição a antibióticos e risco de cancro colorretal.

Com foco num período de 23 anos, de 1 de janeiro de 1989 a 31 de dezembro de 2012, os investigadores encontraram 28.890 casos de cancro colorretal. Estes pacientes corresponderam a cada um dos registos de pacientes até cinco “controles” saudáveis ​​que nunca desenvolveram a doença, mas que tinham características semelhantes, incluindo idade, sexo e prática clínica geral, totalizando 137.077 casos de “controlo” para comparação.

Os investigadores usaram os registos médicos para identificar e avaliar o histórico de cada caso para os fatores de risco do cancro colorretal, como uma história de obesidade, tabagismo, uso de álcool e diabetes, bem como o uso de antibióticos.

Como esperado, os investigadores descobriram que os pacientes que desenvolveram cancro colorretal tinham maior probabilidade de ter um ou mais dos fatores de risco conhecidos. No entanto, quando contabilizaram esses fatores na avaliação estatística, descobriram que aqueles que desenvolveram cancro de cólon tinham uma probabilidade ligeiramente maior de terem sido expostos a antibióticos (71,3% em comparação com 69,1%). Os pacientes com cancros retais não mostraram essa associação.

Estudos anteriores mostraram que a exposição a antibióticos estava associada apenas ao risco aumentado de aproximadamente 15% de cancro no cólon proximal (a primeira e parte intermediária do cólon), mas não no cólon distal (última parte do cólon), e esse risco ocorreu particularmente após exposição a classes de antibióticos que matam bactérias anaeróbicas, como os da família da penicilina.

Imagem: Gut
Imagem: Gut

Entre as descobertas convincentes, referem os investigadores, foi o rápido início do aumento do risco de cancro de cólon, começando com apenas 15 a 30 dias de exposição total a antibióticos (aproximadamente 8% de risco aumentado com 15 a 30 dias de exposição total a antibióticos e aproximadamente 15% de aumento risco com 30 ou mais dias de exposição total aos antibióticos). No entanto, a associação foi revertida para cancro retal: quanto mais exposição total a antibióticos, especificamente exposições totais de 60 dias ou mais, menor a probabilidade de terem cancro retal. Cancros que se desenvolveram no cólon foram ligados à exposição a antibióticos pelo menos 10 anos antes. Não houve aumento do risco com exposições com menos de 10 anos de antecedência.

Embora os antibióticos sejam, na maioria das vezes, altamente eficazes na erradicação de infeções bacterianas, explicou a investigadora, os antibióticos também podem alterar o equilíbrio do bioma intestinal matando bactérias benéficas e permitindo que as patogénicas prosperem. Algumas dessas bactérias sobreviventes podem ser carcinogénicas, estimulando os pólipos a crescerem e desenvolverem tumores malignos.

Nos últimos anos, os alimentos e suplementos ricos em probióticos tornaram-se populares, em parte para tratar dos desequilíbrios no bioma intestinal. Mas os dados sobre probióticos são mistos, referiu a investigadora e alguns estudos mostraram efeitos positivos e outros não mostraram qualquer efeito ou efeitos negativos do uso desses suplementos. Em vez de tentar adicionar bactérias benéficas ao intestino, a melhor maneira de evitar o risco potencial de cancro de cólon pelo uso de antibióticos é através da prescrição mais cautelosa de antibióticos.

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