Eleições no Brasil: Lula vs Bolsonaro e o impacto no Brasil e no Mundo

Eleições no Brasil: Lula vs Bolsonaro e o impacto no Brasil e no Mundo
Eleições no Brasil: Lula vs Bolsonaro e o impacto no Brasil e no Mundo

No dia 4 de outubro de 2026, domingo, cerca de 160 milhões de brasileiros irão às urnas para eleger um presidente, governadores estaduais, dois terços do Senado, deputados federais e estaduais e deputados distritais do Distrito Federal.

A eleição coloca em discussão o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o legado político do ex-presidente Jair Bolsonaro. O filho de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, é o principal adversário de Lula da Silva para a presidência. A campanha para estas eleições foram centradas nas preocupações dos eleitores com a economia, a segurança pública, a crise no Supremo Tribunal Federal e o futuro do país.

Edgar Franco-Vivanco, especialista em ciência política da Universidade de Michigan e diretor do Latin American Elections Hub, e Raphael Nishimura, diretor de operações de sondagens do Instituto de investigação Social, abordam o sentimento do eleitorado, os estudos de opinião e as possíveis implicações da eleição para a América Latina e para o mundo.

■ O que as eleições brasileiras podem significar para a região e para o mundo?

Edgar Franco-Vivanco: A América Latina tem demonstrado uma clara guinada política à direita. Quatro países da região — Chile, Colômbia, Equador e Peru — recentemente adotaram governos de direita. No Brasil, os eleitores estão dececionados com os governos de esquerda anteriores e cada vez mais frustrados com o aumento da criminalidade e os persistentes escândalos de corrupção. Como a maior democracia da América Latina, o Brasil determinará se a guinada à direita na região ganhará força ou enfrentará uma forte resistência.

A eleição tem consequências significativas para a vida interna do país e para o equilíbrio de poder regional. Uma guinada à direita deixaria o México como a única grande democracia regional fora dessa tendência.

Para potências internacionais como os Estados Unidos e a China, o resultado determinará como o próximo governo equilibrará relações comerciais cruciais e a influência estrangeira. No âmbito interno, o cotidiano depende de como a nova administração lidará com a segurança pública, o desempenho econômico e a corrupção persistente.

Esta importante eleição no Brasil testará a força e a estabilidade das instituições democráticas da região. Nações menores da América Latina acompanham de perto o resultado, enquanto avaliam como alinhar suas políticas regionais com a principal potência da região.

O Brasil precisa equilibrar sua principal relação econômica com a China com a forte pressão diplomática dos Estados Unidos. Uma votação final apertada aumenta o risco de conflitos pós-eleitorais e a pressão sobre os candidatos para que respeitem as normas democráticas, aceitando os resultados oficiais.

Os candidatos de direita estão capitalizando sobre as preocupações com a segurança pública, fazendo da redução da criminalidade seu foco principal. Enquanto isso, muitos eleitores permanecem profundamente apáticos e dececionados com a democracia porque os candidatos não abordaram essas questões diretamente.

■ Como se dividem os eleitores entre os principais grupos demográficos nesta eleição?

Edgar Franco-Vivanco: De acordo com pesquisas anteriores, o género é um fator primordial na divisão do apoio eleitoral. Tradicionalmente, as mulheres apoiam Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto os homens tendem a apoiar Jair Bolsonaro e partidos de direita.

Sondagens recentes mostram que essa diferença entre os géneros está diminuindo à medida que as campanhas dos candidatos buscam alterar essas tendências. Enquanto isso, os jovens eleitores estão demonstrando uma mudança no comportamento político. Ao contrário dos ciclos eleitorais anteriores, quando os jovens eleitores se alinhavam fortemente com causas de esquerda, as sondagens atuais indicam um eleitorado mais dividido entre os jovens.

■ Que desafio pós-eleitoral ameaça a estabilidade do resultado?

Edgar Franco-Vivanco: O principal perigo reside em saber se o candidato derrotado aceitará o resultado final sem conflitos. Uma margem apertada aumenta a probabilidade de disputas pós-eleitorais, especialmente se Flávio Bolsonaro sofrer uma derrota por pequena margem. Especialistas consideram a adesão dos candidatos às normas democráticas como o principal teste para a manutenção da paz após a votação.

■ De que forma o comércio externo e as relações internacionais influenciam os acontecimentos desta eleição?

Edgar Franco-Vivanco: As relações exteriores dependem muito de como o novo presidente equilibrará as principais potências econômicas globais. A China continua sendo o principal parceiro comercial do Brasil, tornando os fortes laços econômicos essenciais para a estabilidade financeira do país.

Ao mesmo tempo, o governo enfrenta pressão geopolítica direta dos Estados Unidos, que preferem uma administração alinhada aos seus interesses na região. Manter esse delicado equilíbrio entre Washington e Pequim representa um complexo desafio diplomático para qualquer governo. Nações menores da América Latina acompanham de perto os desdobramentos, enquanto avaliam como alinhar suas políticas externas com a liderança regional.

■ Agora, vamos falar sobre as sondagens. Que informações podemos esperar das últimas oito sondagens presidenciais, com divulgação no sábado, véspera da eleição no Brasil?

Raphael Nishimura: Teremos sondagens de tamanhos e metodologias variadas, então cada uma analisará a mesma questão sob uma perspetiva diferente. Podemos esperar que algumas delas apresentem resultados diferentes, mas, em média, elas oferecerão um retrato do eleitorado brasileiro momentos antes da votação.

As sondagens finais tendem a fornecer um retrato mais preciso das intenções de voto, ou mudanças de última hora ainda podem afetar significativamente os resultados?

Raphael Nishimura: Embora as sondagens finais possam fornecer uma visão mais precisa do que os eleitores estão pensando à medida que a eleição se aproxima, não devemos esperar que elas necessariamente reflitam os resultados eleitorais. Fatores como a participação eleitoral, decisões de última hora e votos estratégicos podem alterar o retrato da situação obtido dias ou até mesmo horas antes da eleição.

■ O que os eleitores devem levar em consideração ao comparar as conclusões de diferentes organizações?

Raphael Nishimura: Metodologias diferentes podem levar a resultados diferentes. A metodologia de sondagem de opinião envolve muitos aspetos, desde o desenho da amostra e do questionário até os ajustes estatísticos após a coleta de dados. Um dos principais fatores, no entanto, é o modo de coleta de dados — seja presencialmente, por telefone ou online.

Isto provavelmente explica as principais diferenças nos resultados. Além disso, no Brasil, todas as sondagens eleitorais divulgadas publicamente devem ser registadas no Tribunal Superior Eleitoral. Qualquer pessoa pode consultar o sistema do tribunal para verificar a metodologia utilizada em cada sondagem.

■ Quais são os maiores desafios metodológicos para medir com precisão as intenções de voto na corrida presidencial brasileira?

Raphael Nishimura: Embora o voto seja obrigatório no Brasil, um dos principais desafios metodológicos para os institutos de pesquisa é mensurar a participação, especialmente porque a abstenção não é aleatória e afeta os candidatos de maneiras diferentes. Esse desafio é agravado pelo fato de que, assim como nos Estados Unidos e em outros países, os eleitores tendem a superestimar a participação nas sondagens.

Além disso, o Brasil não possui um banco de dados – como o cadastro eleitoral dos Estados Unidos – que contenha o histórico de comparecimento às urnas de cada eleitor e que permita aos institutos desondagens estimar o perfil do eleitor. A ausência de tal lista, somada à extensão continental do país, também dificulta bastante a coleta eficiente de dados sem recorrer à amostragem por telefone. A amostragem por telefone apresenta seus próprios problemas, já que menos pessoas atendem às ligações devido a telemarketing e fraudes.