As plantas medicinais e aromáticas como as dos Montes Apalaches sustentam a biodiversidade e as economias rurais, mas sobretudo transportam séculos de conhecimento tradicional. Uma observação pela especialista Kirsten Stephan da Universidade da Virgínia Ocidental, quando se assinala o Dia Mundial da Vida Selvagem, a 3 de março. Mas lembra, também, que uma exploração excessiva coloca a floresta em risco.
A investigadora Kirsten Stephan, que coordena o programa de silvicultura na Faculdade de Agricultura e Recursos Naturais Davis da Universidade da Virgínia Ocidental, referiu que “os Montes Apalaches são um ponto de biodiversidade global para a flora temperada. Paisagens antigas, não glaciares, permitiram que as espécies persistissem e se diversificassem ao longo de milhões de anos. Nas florestas mistas de madeira nobre dos Apalaches, plantas medicinais e comestíveis que apreciam a sombra prosperam em notável abundância.”
As florestas são o resultado de um gestão adequada em que “as práticas de queima controlada dos nativos americanos moldaram as florestas dos Apalaches em sistemas dinâmicos, abertos e dominados por carvalhos, com diversas comunidades vegetais vivendo abaixo da copa das árvores. Essas práticas culturais de queima aumentavam a luminosidade, reciclavam nutrientes e criavam mosaicos de habitats que provavelmente ampliaram a diversidade de muitas espécies comestíveis e medicinais.”
Entre as mais diversas plantas a investigadora indicou alguns exemplos de plantas:
■ “O ginseng americano é talvez a planta medicinal mais conhecida dos Apalaches, valorizada nos mercados do Leste Asiático há séculos como um adaptógeno que auxilia a saúde imunológica e metabólica. O ginseng atinge preços elevados, mas o crescimento lento e a intensa pressão da colheita levaram ao declínio populacional, o que torna essenciais as regulamentações de colheita sustentável na natureza e as iniciativas de cultivo florestal.”
■ “O cimicífuga é outra espécie fundamental, amplamente utilizada para o suporte hormonal e da menopausa. A popularidade em suplementos fitoterápicos gerou uma procura comercial significativa. Embora ainda seja relativamente disseminada, a colheita excessiva localizada ameaça os estoques naturais, sendo necessário monitoramento, fornecimento responsável e cadeias de suprimento cultivadas.”
■ “O selo-de-ouro, conhecido por seus alcaloides antimicrobianos, tornou-se emblemático dos desafios de conservação no comércio de ervas. Outrora abundante, foi intensamente explorado e agora é considerado em risco em muitas partes de sua área de distribuição. A proteção do selo-de-ouro exige a preservação do habitat e uma mudança de foco, priorizando a propagação em detrimento da coleta extrativa na natureza.”
■ “O alho-poro selvagem ganhou fama culinária nacional. Seu sabor picante o torna uma iguaria sazonal, celebrada em festivais dos Apalaches. No entanto, o alho-poro selvagem se reproduz lentamente, e a colheita da planta inteira pode devastar as colônias. A educação sobre a colheita parcial e o cultivo é essencial para evitar o esgotamento das populações.”
■ “O pawpaw (Asimina triloba) é a maior fruta nativa dos Apalaches. Com notas tropicais de banana e manga, o pawpaw está a ganhar destaque nos sistemas alimentares regionais e em projetos agroflorestais. À medida que o interesse cresce, oferece uma oportunidade para promover a agricultura perene que espelha a ecologia florestal, ao mesmo tempo que fortalece as economias locais.”
Muitas espécies medicinais são plantas perenes de crescimento lento que requerem cobertura florestal intacta, solos ricos e microclimas estáveis. A extração de madeira, a conversão de terras e as espécies invasoras perturbam esses ambientes delicados, mas o cultivo florestal tem surgido como uma solução promissora. Ao cultivar plantas de alto valor sob a cobertura arbórea existente, os proprietários de terras podem gerar rendimentos sem desmatar a floresta. Um modelo que apoia a biodiversidade, melhora os meios de subsistência rurais e reduz a pressão sobre as populações de plantas silvestres. Isto mostra que conservação e desenvolvimento económico não necessitam de ser forças opostas.
A investigadora adianta que “as mudanças climáticas introduzem novas incertezas. Alterações na temperatura, mudanças nos padrões de precipitação e o surgimento de pragas ameaçam habitats sensíveis. Espécies adaptadas a microclimas frios e húmidos podem ver os habitats diminuírem, o que torna o monitoramento essencial para o planeamento da conservação.”
“Proteger as plantas medicinais e comestíveis dos Apalaches vai além da biodiversidade. Preserva o conhecimento tradicional, apoia a soberania alimentar regional e mantém recursos genéticos com potencial farmacológico inexplorado. Os Apalaches são um exemplo poderoso de como a gestão ecológica, o patrimônio cultural e o empreendedorismo sustentável podem se interconectar para construir um futuro resiliente”, concluiu Kirsten Stephan da Universidade da Virgínia Ocidental.














