Imunoterapia com quimioterapia antes da cirurgia pode beneficiar tratamento do cancro do pâncreas

Imunoterapia com quimioterapia antes da cirurgia pode beneficiar tratamento do cancro do pâncreas
Imunoterapia com quimioterapia antes da cirurgia pode beneficiar tratamento do cancro do pâncreas. Foto: Rosa Pinto

Um novo estudo realizado por investigadores da Universidade da Califórnia, Los Angeles, EUA, conclui que a adição de imunoterapia à quimioterapia padrão antes da cirurgia é segura e promissora para alguns pacientes com cancro do pâncreas limítrofe, uma doença historicamente difícil de tratar.

Os resultados do estudo já publicados na “Nature Communications” mostram que a combinação de imunoterapia e quimioterapia não produziram vantagens claras de sobrevida para a maioria dos pacientes, mas que um subgrupo importante de pacientes mostrou vantagens excecionalmente duradouras. Em alguns pacientes mostrou a vantagem de prolongamento de vida para a realização da cirurgia, com redução dos tumores e resultados de sobrevida encorajadores.

O estudo também mostrou alterações imunológicas que podem limitar a eficácia da imunoterapia no cancro do pâncreas, dando pistas importantes sobre como as futuras estratégias de tratamento podem ser melhoradas para benefício dos pacientes.

O cancro do pâncreas continua a ser um dos cancros mais letais, com poucas opções de tratamento eficazes. O uso da imunoterapia tem benefícios muito limitados ao contrário do uso no tratamento de outros tipos de cancro.

No tratamento do cancro do pulmão e da mama, a administração de imunoterapia juntamente com quimioterapia antes da cirurgia melhorou significativamente os resultados. Uma estratégia que não terá sido raramente testada no cancro do pâncreas.

O estudo, ao focar-se em pacientes com doença borderline-ressecável, um grupo para o qual a cirurgia é possível, mas tecnicamente desafiadora, abriu uma oportunidade para avaliar se a imunoterapia pode melhorar o sucesso cirúrgico e a sobrevida, como revelar como o ambiente imunológico do tumor responde. Os resultados podem ajudar a orientar o desenvolvimento de estratégias de tratamento mais eficazes e personalizadas para tratar um cancro sem opções de tratamento.

Os investigadores realizaram ensaio clínico de fase 1b/2 de braço único com 28 pacientes com cancro pancreático limítrofe ressecável. Os pacientes receberam quimioterapia FOLFIRINOX modificada combinada com o imunoterápico nivolumabe antes da cirurgia.

Os investigadores analisassem diretamente o tecido tumoral removido durante a cirurgia e o comparam com biópsias pré-tratamento e amostras históricas de pacientes que receberam apenas quimioterapia.

A equipa de investigação utilizou técnicas avançadas, incluindo análise de expressão génica, imuno-histoquímica e transcriptómica espacial, para examinar como o tratamento alterou o panorama imunológico do tumor.

A maioria dos pacientes tolerou bem o tratamento combinado e foi para cirurgia, sem efeitos colaterais graves relacionados ao sistema imunológico ou atrasos no tratamento. Do conjunto dos participantes no estudo, verificou-se que 79% dos pacientes foram submetidos a ressecção cirúrgica, todos os pacientes submetidos à cirurgia tiveram seus tumores removidos com sucesso, 86% apresentaram margens limpas e em 50% dos casos, não foi detetado cancro nos gânglios linfáticos.

Ao testarmos a nova combinação de medicamentos no contexto pré-operatório, conseguimos comparar diretamente biópsias pré-tratamento com espécimes de ressecção cirúrgica para entender melhor por que a terapia funciona em alguns pacientes e, igualmente importante, por que não funciona em outros, e quais estratégias adicionais poderiam melhorar as respostas”, disse, Timothy Donahue, chefe de oncologia cirúrgica e professor de cirurgia na Escola de Medicina David Geffen da Universidade da Califórnia.

Embora os resultados de sobrevida global tenham sido semelhantes aos normalmente obtidos quando são apenas submetidos a quimioterapia, um subgrupo de pacientes apresentou respostas excecionalmente fortes e duradouras, tendo em 9% dos casos ocorrido o desaparecimento completo do cancro detetável no momento da cirurgia, e outros 9% apresentaram respostas quase completas.

Análises imunológicas mostraram que a imunoterapia aumentou a atividade imune dentro dos tumores, incluindo níveis mais elevados de células T CD8 capazes de destruir células cancerígenas. Ao mesmo tempo, o tratamento foi associado a alterações no microambiente tumoral, marcadas por aglomerados desorganizados de células imunes e acúmulo de plasmócitos e células T exaustas, que são células imunes ativadas, porém menos eficazes no combate ao cancro.

Para os investigadores, as descobertas no estudo podem ajudar a explicar o motivo da imunoterapia desencadear frequentemente ativação imune sem se traduzir em controlo tumoral a longo prazo no cancro do pâncreas. Os investigadores apontam para estratégias que podem melhorar futuras terapias combinadas.