Só o uso mais responsável de pesticidas pode garantir ecossistemas agrícolas conclui investigação da Universidade do Porto

Só o uso mais responsável de pesticidas pode garantir ecossistemas agrícolas conclui investigação da Universidade do Porto
Só o uso mais responsável de pesticidas pode garantir ecossistemas agrícolas conclui investigação da Universidade do Porto. Foto: Wikipedia

Um recente estudo de investigação recolhe evidências de que o uso de pesticidas ameaça os ecossistemas agrícolas. O estudo, já publicado na revista “Environmental Research”, de que é autor Anastasios Limnios, doutorando da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, mostra que “compreender os efeitos nas espécies da interação de múltiplos químicos com as alterações climáticas deve ser uma prioridade, uma vez que esta pressão combinada está presente nos ambientes naturais”.

No estudo, Anastasios Limnios analisou experimentalmente o efeito combinado do glifosato e do aumento da temperatura em exemplares da espécie Podarcis bocagei (Lagartixa-de-Bocage), que é muito comum nos muros das explorações agrícolas. Um trabalho que o doutorando está a realizar no BIOPOLIS-CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, em colaboração com as universidades de Atenas e de Lyon, e com a Academia Checa de Ciências.

Na investigação com o título “Efeitos combinados do glifosato e da temperatura ambiente na gestão energética de um lagarto: Evidência de um estudo de exposição controlada” o doutorando analisou espécimes de diferentes tamanhos de lagartixas-de-Bocage, que possuem um metabolismo altamente dependente da temperatura ambiental.

Para a investigação, os animais foram alimentados por vermes contaminados com doses legais de glifosato e submetidos a diferentes temperaturas (18, 25 e 29 ◦C), o que veio comprovar que o efeito combinado da contaminação com herbicidas e do aquecimento atmosférico (como o provocado pelas alterações climáticas) aumenta o stress oxidativo dos espécimes, obrigando-os a um esforço metabólico de destoxificação que exaure recursos que, de outro modo, seriam investidos no crescimento e na reprodução.

Em comunicado, a Universidade do Porto cita o artigo indicando que “os resultados obtidos não sugerem, porém, o aumento dos danos provocados pela oxidação”. Mas, que o estudo recolheu indícios de que, nos animais de maior porte, a redução da energia disponível resultante da intoxicação com glifosato agrava os défices de crescimento e reprodução.

“Levadas ao extremo, aqueles efeitos podem provocar não só a extinção da espécie, mas também a perda dos serviços que as lagartixas prestam ao ecossistema, como o controlo de pragas”, explicou, citado pelo comunicado, Miguel Carretero, orientador do doutoramento de Anastasios Limnios. Ora, como base na conclusão do estudo a extinção da espécie leva à necessidade de se recorrer ainda a mais pesticidas.

“Os efeitos combinados da massa [dos espécimes] e da exposição [aos químicos tóxicos] podem representar uma ameaça para as populações dos ambientes agrícolas, uma vez que os animais maiores têm um maior contributo reprodutivo. Esta evidência é valiosa para futuras avaliações de risco e para priorizar a conservação de espécies cujos processos bioenergéticos podem ser particularmente sensíveis à exposição ao glifosato”, refere o artigo publicado.

“Obviamente, o problema não estará restrito às lagartixas nem a uma só espécie, mas sim à dinâmica dos ecossistemas agrícolas no seu conjunto, dos quais tanto precisamos”, explicou Miguel Carretero.

O orientador da investigação acrescentou: “A solução não poderá, porém, passar pelo abandono absoluto no uso de pesticidas, uma vez que estes continuam a ser necessários para controlar as pragas das colheitas, mas sim o seu uso equilibrado, que evite a intensificação agrícola, a qual só pode acarretar novos custos (mais pesticidas para controlar os insetos que as lagartixas não consomem) para o agricultor, e também para a saúde dos consumidores, uma vez que têm sido descritos efeitos cancerígenos, para os humanos, do consumo de alimentos contaminados com glifosato”.

“Só uma agricultura e um consumo responsáveis podem parar esta corrida. Nesse sentido, o estudo permitiu fornecer informação científica validada para que todos – agricultores, consumidores e autoridades – tomem as melhores decisões”, concluiu Miguel Carretero.