Há mistérios que não precisam de sociedades secretas, manuscritos escondidos ou códigos indecifráveis para nos prenderem a atenção. Por vezes, basta entrar num museu em Coimbra e olhar demoradamente para um conjunto de esculturas com quase cinco séculos. Entre as figuras de uma Última Ceia, encontramos rostos que parecem pertencer a homens comuns, expressões que transmitem inquietação e uma humanidade que nos faz recordar uma das obras mais célebres da História da Arte, a Última Ceia de Leonardo da Vinci. Estaremos perante uma simples coincidência artística ou existirá uma história ainda por descobrir?
O nome a reter é Filipe Hodart, também referido como Philippe Hodart ou Hodarte, escultor de origem francesa que trabalhou em Portugal no século XVI e deixou no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, uma das mais extraordinárias representações escultóricas da última refeição de Cristo com os seus Apóstolos. Executado entre 1530 e 1534 para o refeitório do mosteiro, o conjunto encontra-se hoje no Museu Nacional de Machado de Castro, onde podemos compreender a dimensão de uma obra que merece muito mais atenção do que aquela que habitualmente lhe concedemos.
A pergunta impõe-se quase naturalmente: poderia Hodart ter conhecido Leonardo da Vinci? A hipótese é tentadora, sobretudo quando observamos as afinidades entre as duas representações, mas importa separar o fascínio da investigação histórica. Leonardo morreu em 1519, cerca de onze anos antes do início da execução da obra de Coimbra, e não existe documentação conhecida que demonstre que os dois artistas tenham sido amigos ou colegas. Contudo, a ausência de um documento que comprove esse encontro não nos dispensa de investigar os percursos dos artistas, os lugares onde viveram e trabalharam e os ambientes culturais em que poderão ter circulado.
Dois artistas, um Renascimento e uma hipótese por investigar
Leonardo da Vinci passou os últimos anos da sua vida em França, onde chegou em 1516, a convite do rei Francisco I, instalando-se no Château du Clos Lucé, em Amboise. Levou consigo a sua experiência artística, os seus conhecimentos científicos e uma reputação que ultrapassava largamente as fronteiras italianas. A sua presença na corte francesa constituiu um dos episódios mais fascinantes da circulação europeia de artistas e saberes durante o Renascimento.
Filipe Hodart, por seu lado, é uma figura cuja biografia continua a apresentar lacunas. A sua origem e formação têm sido objeto de discussão, e o seu percurso anterior à chegada a Portugal não está suficientemente esclarecido para reconstruirmos todos os lugares por onde passou. É precisamente nesta zona ainda pouco conhecida da sua vida que importa colocar novas perguntas, em vez de encerrar prematuramente as possibilidades de investigação.
Se Hodart circulou por ambientes artísticos franceses ou italianos antes de trabalhar em Coimbra, poderá ter contactado com artistas, oficinas e modelos culturais ligados à grande transformação artística do Renascimento. A hipótese de uma passagem por espaços frequentados por mestres de primeira linha merece ser estudada, embora não possamos afirmar, sem documentação, que esteve no mesmo local que Leonardo ou que privou pessoalmente com ele.
A cronologia exige prudência. Para que tivesse conhecido Leonardo em França, Hodart teria de ter estado nesse país antes da morte do mestre, em 1519. Uma eventual passagem posterior por França poderia, ainda assim, tê-lo colocado em contacto com a tradição artística e com os círculos que receberam a influência de Leonardo. São possibilidades distintas, e é precisamente essa distinção que permite transformar uma ideia sugestiva numa questão histórica séria.
Também a eventual ligação de Hodart a Florença merece atenção, uma vez que a cidade foi um dos grandes centros de criação artística do Renascimento, reunindo oficinas, mecenas, escultores, pintores e arquitetos. Mas a identificação dos lugares frequentados pelo escultor exige provas que ainda não podemos apresentar como conclusivas. O que podemos afirmar, sem qualquer necessidade de exagero, é que a sua obra revela um domínio técnico e uma capacidade expressiva que justificam a sua inclusão entre os artistas mais interessantes do Renascimento português.
Hodart, um escultor de primeira linha
A Última Ceia de Coimbra não é a obra de um artista menor que ganhou importância apenas por ter trabalhado num mosteiro português. É uma criação de grande ambição artística, na qual Filipe Hodart demonstrou um domínio extraordinário da modelação, da composição e da expressividade humana. O conjunto foi concebido para o refeitório do Mosteiro de Santa Cruz, numa época em que Coimbra ocupava um lugar de destaque na vida cultural, intelectual e religiosa do reino.
Executadas em terracota, as figuras possuem uma presença física que as distingue de muitas representações religiosas da época. Hodart não se limitou a criar personagens destinadas a ilustrar um episódio bíblico; construiu uma composição em que os corpos, os rostos e os gestos participam numa narrativa de intensa dimensão dramática. Cada figura contribui para o ambiente da cena, criando uma relação entre os Apóstolos que ultrapassa a simples disposição decorativa.
A escolha da terracota é, por si só, significativa. Este material permite trabalhar volumes, expressões e pormenores com grande liberdade, mas exige igualmente conhecimento técnico e capacidade de antecipar o comportamento da matéria durante a execução e a cozedura. Hodart soube tirar partido dessas possibilidades, criando figuras que parecem possuir uma individualidade própria, como se cada rosto tivesse sido observado atentamente na vida real.
É essa qualidade que nos obriga a olhar para o escultor com outros olhos. A sua obra não deve ser reduzida a uma curiosidade regional ou a um episódio isolado da história de um mosteiro. Pelo contrário, constitui um testemunho da circulação de linguagens artísticas na Europa renascentista e da capacidade de um artista de origem estrangeira produzir, em Portugal, uma criação de extraordinária originalidade.
A designação de escultor de primeira linha não deve depender de uma eventual amizade com Leonardo da Vinci. A qualidade da obra de Hodart basta para justificar a sua importância. Se vier a ser demonstrada alguma ligação pessoal ou profissional entre ambos, essa descoberta acrescentará uma dimensão biográfica fascinante à sua história, mas não será ela a criar o valor artístico que já reconhecemos nas esculturas de Coimbra.
São João e as semelhanças com Leonardo da Vinci
A comparação com a Última Ceia de Leonardo torna-se particularmente interessante quando observamos a figura de São João e a forma como os discípulos são representados. Na pintura de Milão, Leonardo transformou os Apóstolos em personagens com emoções, reações e personalidades distintas, criando uma composição em que cada gesto contribui para o significado da cena. A notícia da traição de Judas desencadeia uma sucessão de respostas humanas, desde a surpresa à inquietação, passando pela dúvida e pela indignação.
Em Coimbra, Hodart trabalha com uma linguagem diferente, porque a escultura acrescenta a tridimensionalidade, a presença material e a possibilidade de observar as figuras de vários ângulos. No entanto, encontramos uma preocupação comparável com a individualização das personagens e com a representação de uma humanidade reconhecível. A semelhança não reside apenas na identificação de uma figura ou de um gesto, mas na capacidade de transformar um episódio sagrado numa cena habitada por pessoas que parecem reagir de forma própria ao que está a acontecer.
São João merece uma atenção particular, precisamente porque a sua representação convida a estabelecer paralelos com a figura do discípulo amado na pintura de Leonardo. As afinidades visuais podem alimentar a hipótese de que Hodart conhecia modelos ou tradições artísticas relacionados com a obra italiana, mas não constituem, por si só, prova de contacto direto entre os dois artistas. Para avançar nesse sentido, seria necessário comparar os pormenores formais das duas composições e cruzar essa análise com documentação sobre a formação e as deslocações do escultor.
Há, contudo, uma dimensão ainda mais fascinante na Última Ceia de Coimbra: os Apóstolos parecem homens do povo. Os rostos não transmitem apenas uma beleza idealizada ou uma solenidade distante; parecem pertencer a pessoas comuns, com as marcas da idade, as expressões de quem viveu e as particularidades que tornam cada indivíduo diferente dos restantes. É possível imaginar entre estas figuras trabalhadores, artesãos e homens que poderíamos encontrar nas ruas de uma cidade do século XVI.
Esta humanização aproxima a obra de Hodart de uma das grandes conquistas artísticas do Renascimento, a valorização da individualidade humana. A representação religiosa não perde a sua dimensão espiritual, mas ganha uma proximidade que permite ao observador reconhecer nas personagens emoções e comportamentos que fazem parte da experiência quotidiana.
Tal como acontece perante a obra de Leonardo, somos convidados a olhar para os discípulos não como figuras abstratas, mas como homens confrontados com um acontecimento extraordinário. A comparação é, por isso, legítima e enriquecedora, desde que não confundamos afinidade artística com prova biográfica.
A última refeição de Cristo no quotidiano dos monges
Existe ainda um elemento que torna esta obra particularmente interessante e que facilmente passa despercebido a quem desconhece a sua localização original. A Última Ceia foi concebida para o refeitório do Mosteiro de Santa Cruz, onde os religiosos se reuniam diariamente para as suas refeições. A representação da última refeição de Cristo com os Apóstolos integrava-se, assim, no quotidiano da comunidade monástica, estabelecendo uma relação simbólica entre o alimento material e a dimensão espiritual da vida religiosa.
A obra não foi pensada originalmente como uma escultura isolada, colocada numa sala de museu para ser observada em silêncio. Fazia parte de um espaço com uma função concreta, no qual a refeição comunitária era acompanhada pela memória de um dos episódios fundamentais do Cristianismo. A sua compreensão exige, por isso, que a observemos tanto como criação artística como elemento de um contexto religioso e arquitetónico específico.
A passagem do tempo alterou profundamente esse contexto. A extinção das ordens religiosas, em 1834, provocou uma transformação radical na organização do património monástico português. Muitas obras perderam os espaços para os quais tinham sido concebidas, outras foram dispersas e algumas sofreram danos que comprometeram a sua integridade. A Última Ceia de Hodart também atravessou um período difícil, durante o qual a preservação do conjunto se tornou uma questão fundamental.
É precisamente essa história de sobrevivência que torna ainda mais importante o trabalho realizado pelo Museu Nacional de Machado de Castro.
O extraordinário trabalho de recuperação do Museu Machado de Castro
A história da Última Ceia de Hodart não se resume à sua criação no século XVI. É também a história de uma obra que sofreu danos, perdeu partes e necessitou de cuidados especializados para continuar a ser compreendida pelas gerações seguintes. Neste percurso, merece destaque António Augusto Gonçalves, primeiro diretor do Museu Machado de Castro, que desempenhou um papel importante no resgate e na valorização de património artístico ameaçado.
O trabalho de conservação e restauro desenvolvido em torno do conjunto merece o nosso reconhecimento. Recuperar esculturas desta natureza não significa simplesmente reparar aquilo que está partido ou preencher as partes em falta, como se a passagem dos séculos fosse um defeito que pudesse ser apagado. Exige investigação histórica, estudo dos materiais, conhecimento das técnicas de execução e decisões rigorosas sobre aquilo que pode ser intervencionado sem comprometer a autenticidade da obra.
No caso da terracota, a tarefa é particularmente delicada. As fraturas, as lacunas e a fragilidade do material obrigam a uma análise cuidada de cada elemento, porque uma intervenção inadequada pode eliminar informação importante ou criar uma aparência que não corresponde à realidade histórica. O objetivo da conservação não é fabricar uma obra nova, mas preservar a matéria original, estabilizar os danos e tornar a criação artística novamente legível.
É neste ponto que o Museu Nacional de Machado de Castro merece ser enaltecido. O trabalho dos seus profissionais permite que uma obra de enorme complexidade continue a ser estudada e apreciada, dando ao público a oportunidade de reconhecer a qualidade artística de Hodart e de compreender as dificuldades associadas à preservação do património. A conservação e o restauro são tarefas frequentemente discretas, demoradas e exigentes, mas sem elas muitas das grandes obras da nossa História teriam desaparecido ou ficado reduzidas a fragmentos impossíveis de interpretar.
Um museu não cumpre a sua missão apenas por receber visitantes ou organizar exposições. Cumpre-a também quando investiga, conserva, documenta e transmite o património que lhe foi confiado. No caso da Última Ceia, esse trabalho permite-nos continuar a observar uma das criações escultóricas mais invulgares do Renascimento português e compreender a dimensão de uma obra que esteve em risco de perder parte significativa da sua presença histórica.
Importa, por isso, reconhecer publicamente o mérito de todos aqueles que contribuíram para a salvaguarda deste conjunto. A preservação do património exige recursos, especialização e continuidade, e o resultado demonstra como o trabalho rigoroso das instituições culturais pode devolver visibilidade a obras que merecem um lugar central na memória coletiva.
O passado ainda tem perguntas para nos fazer
Poderá Filipe Hodart ter conhecido Leonardo da Vinci? A pergunta permanece em aberto, e é precisamente essa abertura que justifica continuar a investigar. Os percursos dos artistas renascentistas não respeitavam as fronteiras nacionais que hoje conhecemos, e as oficinas, as cortes e os grandes centros urbanos constituíam espaços de circulação de pessoas, técnicas e ideias. Para compreender a formação de Hodart, será necessário aprofundar o estudo da sua biografia, identificar os lugares por onde passou e procurar eventuais ligações documentais aos ambientes artísticos italianos e franceses.
Não devemos transformar uma possibilidade numa certeza, mas também não devemos confundir prudência com falta de curiosidade. A História avança quando as perguntas são formuladas com rigor, quando as hipóteses são confrontadas com as fontes e quando as interpretações podem ser revistas à luz de novas descobertas. Uma eventual relação entre Hodart e Leonardo seria uma notícia extraordinária, mas a investigação terá de determinar se existem elementos suficientes para a sustentar.
Entretanto, a obra que o escultor deixou em Coimbra continua a oferecer-nos razões de sobra para a admirar. A Última Ceia de Hodart demonstra uma capacidade invulgar de representar a humanidade das figuras religiosas e de transformar a terracota num meio de expressão artística de grande intensidade. A semelhança que podemos reconhecer com a obra de Leonardo não diminui a originalidade do escultor português; pelo contrário, convida-nos a integrar a sua criação num diálogo mais amplo sobre a arte do Renascimento europeu.
E talvez seja esse o maior interesse desta história. Não precisamos de inventar uma amizade com Leonardo para reconhecer a importância de Hodart, nem de transformar uma hipótese em facto para despertar a curiosidade do leitor. Basta olhar para os rostos dos Apóstolos, reparar na figura de São João e perceber que, quase cinco séculos depois, aquelas esculturas continuam a transmitir emoções que reconhecemos imediatamente.
Graças ao trabalho de conservação e restauro do Museu Nacional de Machado de Castro, esta extraordinária Última Ceia continua a falar connosco. O passado não sobrevive apenas nos livros ou nos arquivos; sobrevive também nas obras que conseguimos preservar e nas perguntas que temos a coragem de lhes fazer.
Quanto a Filipe Hodart, fica a pergunta que o tempo ainda não respondeu. Terá conhecido Leonardo da Vinci? Talvez a documentação futura permita esclarecer esse mistério. Até lá, Coimbra guarda uma obra que, por mérito próprio, coloca o seu autor entre os nomes que merecem ser redescobertos na História da Arte.
Autor: Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor















