Nova perspetiva no debate sobre a IA e os médicos

Nova perspetiva no debate sobre a IA e os médicos
Nova perspetiva no debate sobre a IA e os médicos

A Inteligência Artificial (IA) está a introduzir-se em vários setores de atividade, nomeadamente ma medicina, e há correntes que preconizam que poderá vir a substituir os médicos. Agora, surge uma nova perspetiva já publicada no JAMA que contesta a narrativa, argumentando que a tecnologia expõe falhas estruturais mais profundas no sistema de saúde moderno.

“Esta não é propriamente uma história sobre o fim do médico”, afirmou Canio Martinelli, médico obstetra/ginecologista, mestre em ciências e principal autor do artigo. “É uma história sobre que tipo de médico e que tipo de medicina queremos preservar e fortalecer.”

Dados recentes mostram que a IA pode superar os médicos na perceção de empatia durante avaliações textuais feitas por pacientes, alimentando a ideia de que até mesmo os aspetos mais humanos da medicina podem ser replicáveis. Mas Canio Martinelli argumenta que esses dados devem ser interpretados como um sinal de alerta sobre o que aconteceu nos sistemas de saúde, e não como prova de que as máquinas se tornaram compassivas.

O artigo no JAMA “A Inteligência Artificial Não É o Fim do Médico”, tem como autores investigadores que trabalham com a Sbarro Health Research Organization (SHRO) , sob a liderança de Antonio Giordano, Diretor da SHRO e Professor da Temple University.

“A IA é, às vezes, descrita como superando os humanos até mesmo em áreas como a comunicação empática”, disse Canio Martinelli, acrescentou: “Isso não deve ser interpretado como um triunfo das máquinas, mas como um sinal da distância a que está a prática clínica das condições que tornam a empatia possível.”

“Os médicos foram afastados cada vez mais do leito do paciente e soterrados por crescentes cargas administrativas”, acrescentou Canio Giordano, “e isso criou uma verdadeira rutura na relação médico-paciente”. Pelo que os aparentes pontos fortes da IA ​​refletem, não um objetivo tecnológico, mas um desequilíbrio sistémico.

“A IA não deve ser vista principalmente como uma ferramenta para substituir os médicos”, disse Canio Martinelli, mas “deve ser vista como uma oportunidade para restaurar o que a medicina perdeu progressivamente: tempo para o raciocínio, tempo para a presença, tempo para a conexão humana e tempo para um melhor trabalho em equipa em torno do paciente.”

O artigo situa a IA dentro da evolução mais ampla da própria medicina, levantando uma questão crucial para os sistemas de saúde: se a tecnologia será usada para industrializar ainda mais o atendimento ou para ajudar a libertar os médicos de encargos mecânicos e burocráticos, para que possam tornar-se mais atenciosos, mais disponíveis e mais humanos em seu trabalho.

Canio Martinelli também enfatiza que os médicos devem desempenhar um papel ativo na definição de como a IA será integrada à prestação de cuidados, e indicou: “Os médicos não devem permanecer observadores passivos dessa transição”, mas “precisam participar da discussão tanto como utilizadores de IA como pessoas que ajudam a moldar a forma como ela será implementada.”

Em última análise, essa perspetiva exige uma reformulação do debate, deixando de lado a substituição e aproximando-se da restauração, e Canio Martinelli afirmou: “A IA não significa o fim do médico”, mas “é um teste para saber se a medicina usará a tecnologia para substituir a presença humana ou para finalmente abrir espaço para essa presença novamente.”

“A verdadeira questão não é se a IA pode agir como um médico, mas se os sistemas de saúde usarão a IA para absorver tarefas administrativas e restaurar as funções exclusivamente humanas do médico”, concluiu Antonio Giordano.