Empresa belga Semlex é encaminhada a tribunal criminal por alegada corrupção internacional

Empresa belga Semlex é encaminhada a tribunal criminal por alegada corrupção internacional
Empresa belga Semlex é encaminhada a tribunal criminal por alegada corrupção internacional

A Federação Internacional para os Direitos Humanos (FIDH) dá conta que as partes civis acolheram com satisfação a decisão da Câmara do Conselho de Bruxelas, emitida a 31 de agosto de 2026, de remeter os 14 réus no caso Semlex para o tribunal penal.

Agora, os 14 réus no caso Semlex terão de responder por alegados atos de corrupção de funcionários públicos estrangeiros, lavagem de dinheiro e fraude fiscal relacionados com o contrato do passaporte biométrico congolês.

A Semlex, empresa que produziu os passaportes biométricos da República Democrática do Congo (RDC) entre 2015 e 2025, torna-se agora a primeira empresa belga a ser levada a um tribunal criminal belga por alegados atos de corrupção internacional, com a possibilidade de análise do mérito do caso.

Em maio de 2020, 51 cidadãos congoleses juntaram-se ao processo como partes civis nos tribunais belgas, com o apoio da coligação “O Congo não está à venda“. As cidadãos congoleses juntaram-se a Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH), a Liga dos Direitos Humanos (LDH), a Unis, a Transparência Internacional e a Transparência Internacional Bélgica, todas também como partes civis, num caso que já é considerado histórico.

Os investigadores desenvolveram um trabalho durante quase nove anos, tendo rastreado transações bancárias, analisados centenas de e-mails e mensagens eletrónicas, entrevistaram inúmeras testemunhas e suspeitos e realizaram buscas rogatórias na República Democrática do Congo e nos Emirados Árabes Unidos, onde várias das empresas envolvidas estavam registadas. Esta é considerado pela FIDH uma das investigações belgas mais minuciosas já realizadas sobre supostos atos de corrupção internacional.

Um acordo de 60 milhões de dólares

No processo, os réus são acusados ​​de terem arquitetado um esquema de corrupção em larga escala relacionado ao contrato de passaportes biométricos. Com referiu a FIDH: “segundo documentos obtidos pela imprensa, para cada passaporte vendido a 185 dólares, uma parcela de 60 dólares terá sido paga à LRPS Ltd, uma empresa sediada em Dubai, supostamente ligada a um associado do ex-presidente da República Democrática do Congo, Joseph Kabila. Alega-se que o esquema tenha gerado um desvio de quase 60 milhões de dólares.”

“Espera-se que este caso também destaque as responsabilidades a nível congolês, o que poderá levar a novas ações judiciais na RDC, para que todos os responsáveis ​​sejam responsabilizados pelos seus atos perante os tribunais competentes”, afirmou, citado em comunicado, Jean-Claude Katende, Vice-Presidente da FIDH e Presidente da Associação Africana para a Defesa dos Direitos Humanos (Asadho).

Para a FIDH a decisão que foi tomada representa um importante passo em frente para a justiça belga. Pois, apesar dos compromissos no âmbito da Convenção da OCDE sobre o Combate à Corrupção de Funcionários Públicos Estrangeiros e da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, a Bélgica tem sido repetidamente criticada pela fraca aplicação das leis contra a corrupção de funcionários públicos estrangeiros. Assim, para a FIDH este julgamento será um teste crucial à capacidade da Bélgica cumprir com os compromissos.

“Durante muito tempo, a Bélgica não cumpriu os compromissos de combater a corrupção internacional. Este encaminhamento ao tribunal é histórico: demonstra finalmente que uma empresa belga pode ser responsabilizada por alegados graves atos de corrupção, cometidos no exterior”, explicou a Transparência Internacional Bélgica.

Entretanto as organizações signatárias Associação Africana para a Defesa dos Direitos Humanos (ASADHO), Federação Internacional para os Direitos Humanos (FIDH), Liga dos Direitos Humanos (LDH), Unis, Transparência Internacional e Transparência Internacional Bélgica, reiteram que os réus gozam da presunção de inocência.

Para as entidades civis é esperado que este julgamento estabeleça responsabilidades e envie uma mensagem clara: as empresas belgas devem ser responsabilizadas por seus atos, inclusive quando os alegados atos de corrupção forem cometidos no exterior.