Consumo de peixe gorduroso é benéfico para o cérebro mas pode não prevenir a doença de Alzheimer

Consumo de peixe gorduroso é benéfico para o cérebro mas pode não prevenir a doença de Alzheimer
Consumo de peixe gorduroso é benéfico para o cérebro mas pode não prevenir a doença de Alzheimer. Foto: Rosa Pinto

Comer peixe gorduroso pode não ajudar a prevenir a doença de Alzheimer, conclui estudo de investigadores da Universidade Tufts. No entanto, os peixes gordurosos são considerados, há muito, como “alimento para o cérebro”, pois promovem a saúde cognitiva através de mecanismos anti-inflamatórios, antioxidantes e vasculares.

O efeito comprovado para o cérebro do consumo dos peixes gordurosos levou os cientistas a se questionarem se esses benefícios poderiam estender-se à prevenção da doença de Alzheimer.

Os cientistas do Centro de Pesquisa em Nutrição Humana Jean Mayer do USDA sobre Envelhecimento (HNRCA, na sigla em inglês) da Universidade Tufts procederam a um novo estudo, cujos resultados foram publicados no American Journal of Epidemiology.

O estudo “Consumo Sustentado de Peixe e Risco de Doença de Alzheimer em 21 Anos: Uma Emulação de Ensaio Clínico Direcionado”, usou a emulação de ensaio clínico direcionado, um método que aplica princípios de ensaios clínicos randomizados a dados observacionais de longo prazo, para obter insights.

A abordagem de investigação permitiu reduzir alguns vieses comuns em estudos observacionais tradicionais, que examinam os efeitos em contextos mais “reais” e que já foram utilizados anteriormente para estudar a relação entre peixes gordurosos e a doença de Alzheimer.

José Ordovás, cientista sénior e líder da diretiva de Nutrição de Precisão e Envelhecimento Saudável do HNRCA, indicou que o estudo não mostrou evidências claras de que o simples aumento do consumo de peixe, por si só, reduza significativamente o risco de Alzheimer a longo prazo.

O investigador salientou que o peixe continua a ser um alimento saudável, mas o estudo sugere que o consumo de peixe gorduroso pode não ser uma solução milagrosa para prevenir, por si só, a doença de Alzheimer.

“Acho que o aspeto promissor é que este estudo nos dá uma resposta mais precisa do que estudos anteriores”, disse José Ordovás. “Em outras palavras, usamos um método mais robusto para tentar responder a uma questão sobre dieta a longo prazo de forma mais rigorosa.”

Os investigadores referiram que a doença de Alzheimer desenvolve-se ao longo de décadas, e um ensaio clínico randomizado de longa duração não é muitas vezes viável do ponto de vista logístico ou financeiro.

O objetivo do novo estudo não era presumir que peixes gordurosos protegem contra o Alzheimer, disse José Ordovás, mas testar essa possibilidade usando um delineamento que se aproxima da lógica de um ensaio clínico randomizado com humanos. Nesse caso, o delineamento do estudo envolve a formulação de uma pergunta de longo prazo mais realista: entre adultos mais velhos cognitivamente saudáveis, qual o efeito do consumo contínuo de peixes gordurosos sobre o risco da doença de Alzheimer, em comparação com o consumo habitual?

Os dados utilizados por josé Ordovás no estudo foram do Estudo do Coração de Framingham , que acompanhou o desenvolvimento de doenças cardiovasculares em três gerações de participantes. Especificamente, a nova análise do investigador simulou um ensaio clínico randomizado de 21 anos com 2.012 adultos cognitivamente saudáveis ​​da coorte Framingham Offspring do Estudo do Coração.

“A emulação de ensaios clínicos direcionados é promissora porque nos ajuda a estudar questões de prevenção que são quase impossíveis de randomizar por décadas”, disse José Ordovás. “No estudo em nutrição, isso representa um grande avanço, porque muitas vezes temos que escolher entre ensaios clínicos de curta duração e estudos observacionais menos robustos. Esse método ajuda a preencher essa lacuna.”

Agora, os investigadores pretendem desenvolver um estudo para verificar se o momento da ingestão do peixe, o metabolismo, a genética ou as diferenças entre subgrupos são mais relevantes, e mencionou o gene da apolipoproteína E, que tem sido associado à doença de Alzheimer de início tardio.