Gérald Bloncourt (1926–2018): no centenário do seu nascimento, o olhar humanista que imortalizou a emigração portuguesa e os dias da liberdade

Daniel Bastos, Historiador e Escritor
Daniel Bastos, Historiador e Escritor. Foto: DR

No passado dia 4 de novembro assinalou-se o centenário do nascimento do saudoso fotógrafo franco-haitiano Gérald Bloncourt (1926-2018), uma das grandes referências da fotografia humanista do século XX. As suas imagens, amplamente reconhecidas pela força documental e pela sensibilidade humana, imortalizaram momentos marcantes da história da emigração portuguesa e da conquista da liberdade em Portugal, constituindo um testemunho iconográfico de inestimável valor para a compreensão do nosso passado recente.

Colaborador de publicações de referência no campo social e sindical, entre as quais o jornal L’Humanité e o semanário La Vie ouvrière, Gérald Bloncourt, que viveu radicado em Paris durante mais de meio século, teve o mérito de documentar, com uma sensibilidade ímpar, a chegada das grandes vagas de emigrantes portugueses a França, sobretudo ao longo das décadas de 1960 e 1970.

A sua lente humanista, marcada por uma profunda consciência social e por uma notável sensibilidade poética, captou, de forma singular, as duras condições de vida dos nossos compatriotas nos bairros de lata dos arredores de Paris, conhecidos como bidonvilles. Em localidades como Saint-Denis e Champigny-sur-Marne, milhares de portugueses procuravam construir um futuro melhor, frequentemente confrontados com condições de habitabilidade extremamente precárias, sem eletricidade, saneamento básico ou água potável.

Mais do que registar a precariedade material, Bloncourt soube captar a dignidade, a coragem, os sonhos e a esperança de homens, mulheres e crianças que, movidos pela necessidade de escapar à pobreza, à falta de oportunidades e à repressão do Estado Novo, procuravam além-fronteiras uma vida melhor. As suas fotografias constituem, por isso, um testemunho fundamental de um dos maiores movimentos migratórios da história contemporânea portuguesa, marcado também pela emigração clandestina, vulgarmente conhecida como “a salto”, através dos Pirenéus.

Igualmente relevantes são as imagens que captou durante as suas viagens a Portugal, a partir da década de 1960, nas quais documentou o quotidiano de diferentes geografias nacionais, designadamente Lisboa, Porto e Chaves. A estas juntam-se os registos da sua experiência junto de emigrantes portugueses na travessia clandestina para França e, sobretudo, as extraordinárias fotografias dos primeiros dias de liberdade após a Revolução de 25 de Abril de 1974. Entre estas, destacam-se as imagens das comemorações do 1.º de Maio de 1974, em Lisboa, uma das maiores manifestações populares da história portuguesa, que reuniu centenas de milhares de pessoas num momento de extraordinária afirmação coletiva da liberdade e da democracia, após quase meio século de ditadura.

O trabalho fotográfico de Bloncourt sobre a emigração portuguesa e a génese da democracia esteve na origem de dois importantes projetos editoriais concebidos e realizados, na década de 2010, pelo historiador Daniel Bastos: Gérald Bloncourt – O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores (1954-1974) e Gérald Bloncourt – Dias de Liberdade em Portugal.

Estas edições assumem particular relevância na valorização e divulgação da memória histórica portuguesa. A primeira conta com prefácio de Eduardo Lourenço, um dos mais destacados pensadores, ensaístas e críticos literários portugueses do século XX. A segunda é prefaciada pelo capitão de Abril, Vasco Lourenço, uma das figuras centrais do Movimento das Forças Armadas e da Revolução dos Cravos.

Ao longo dos anos, o extraordinário legado fotográfico de Bloncourt sobre a emigração portuguesa e os primeiros tempos da democracia tem sido apresentado em diversos espaços expositivos, associações e instituições culturais, em Portugal e no estrangeiro. Contudo, é no coração do Minho, no Museu das Migrações e das Comunidades, sediado em Fafe, que se encontra um núcleo particularmente expressivo deste património. Aí se encontra uma valiosa coleção de 104 fotografias de Gérald Bloncourt, oferecidas pelo próprio ao Município de Fafe, em 2009, na sequência da relação de amizade que estabeleceu com a cidade minhota.

O percurso de vida e a obra deste fotógrafo francês de origem haitiana, que durante cerca de duas décadas acompanhou e documentou a vida dos portugueses em França e em Portugal, foram justamente reconhecidos pelo Estado português em 2016. No âmbito das comemorações oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, realizadas nesse ano em Paris, pela primeira vez numa cidade estrangeira, Gérald Bloncourt foi agraciado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Como sublinhou o mais alto magistrado da Nação, em 2018, aquando do falecimento deste “franco-atirador” dos bidonvilles e testemunha singular da emigração clandestina “a salto” para França, «há um dever de memória» em evocar o trabalho de Gérald Bloncourt junto da comunidade portuguesa. Um dever de memória que permanece atual e que encontra na obra de Bloncourt uma das suas mais eloquentes expressões, pois as suas fotografias constituem um tributo à coragem dos portugueses que partiram, à dignidade de quem enfrentou a adversidade longe da pátria e à conquista da liberdade por um povo que, dentro e fora de fronteiras, nunca deixou de acreditar num futuro melhor.

Autor: Daniel Bastos, Historiador e Escritor