Anabolizantes associados à doença arterial coronária precoce

Consumo de esteroides androgénicos anabolizantes podem estar associados à doença arterial coronária precoce, conclui estudo de investigação agora divulgado no Congresso Brasileiro de Cardiologia de 2017.

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Anabolizantes associados à doença arterial coronária precoce
Anabolizantes associados à doença arterial coronária precoce. Foto: Rosa Pinto/arquivo

Estudo de investigação que envolveu 51 participantes com idade média de 29 anos concluiu que os esteroides androgénicos anabolizantes (anabolizantes) podem estar associados à doença arterial coronária precoce. Os resultados do estudo acabam de ser apresentados no Congresso Brasileiro de Cardiologia de 2017 (SBC 2017),

Francis Ribeiro de Souza, principal autor do estudo, doutorando do Instituto do Coração (InCor), da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, referiu que “o uso de esteroides androgénicos anabolizantes entre os jovens é comum em todo o mundo, e eventos adversos, como a morte cardíaca súbita e ataque cardíaco, foram relatados em atletas”.

O investigador esclareceu que “no Brasil, cerca de um milhão de pessoas consomem esteroides androgénicos anabolizantes pelo menos uma vez, o que explica ser esta a sétima droga mais consumida no país.”

O estudo examinou se os anabolizantes poderiam estar associados à doença arterial coronária precoce, e avaliou se a redução da função da lipoproteína de alta densidade (HDL, do inglês High Density Lipoprotein) poderia ser um mecanismo causador da doença arterial coronária em utilizadores de anabolizantes.

No estudo participaram 51 homens com idades entre os 23 e os 43 anos, com uma média de 29 anos. De entre os participantes, 21 fizeram musculação e tomaram anabolizantes durante pelo menos dois anos, 20 fizeram musculação, mas não tomaram esteroides, e dez saudáveis, mas sedentários.

Todos os participantes foram submetidos a angiografia coronária por tomografia computadorizada, que é um tipo de exame por imagem usado para visualizar as artérias, o que permitiu avaliar a presença de aterosclerose nas artérias coronárias.

Todos os participantes também foram submetidos a exame de urina para confirmar o uso de esteroides, e a colheitas de amostras de sangue para medir os níveis de lipídios, incluindo o HDL. Os investigadores recorreram a culturas celulares para medir a capacidade do HDL de cada participante para desempenhar sua função normal de remover o colesterol dos macrófagos ou leucócitos.

Os investigadores verificaram que 24% dos utilizadores de esteroides tinham aterosclerose nas artérias coronárias, enquanto entre os participantes que não consumiram esteroides e entre os participantes sedentários não foi identificado nenhum com aterosclerose. Os participantes com aterosclerose também apresentaram níveis significativamente reduzidos de HDL e da função da HDL.

Francis Ribeiro de Souza referiu que “o estudo sugere que o uso de esteroides androgénicos anabolizantes pode estar associado ao desenvolvimento da doença arterial coronária em jovens aparentemente saudáveis. Os esteroides podem afetar a capacidade do HDL de remover o colesterol dos macrófagos, promovendo a aterosclerose.”

O investigador acrescentou que o estudo permitiu observar “a aterosclerose coronária em jovens consumidores de esteroides androgénicos anabolizantes, que em combinação com menores níveis de HDL e redução da função HDL, podem aumentar o risco de eventos cardiovasculares”, pelo que considera ser “necessária mais conscientização sobre os potenciais riscos dessas drogas”,

No entanto tratou-se de “um pequeno estudo observacional”, e por isso não é possível concluir com evidência “que os esteroides causam aterosclerose”, pelo que são necessários “estudos mais amplos, com acompanhamento mais longo” para confirmar os resultados a que agora se chegou.

Para Raul Santos, presidente científico da SBC 2017, “apesar da pequena dimensão da amostra o estudo permite chamar a atenção para um possível problema de saúde importante no Brasil e em outros lugares, uma vez que mostra não apenas os distúrbios clássicos dos lipídios induzidos por esteroides, mas associa-os à ocorrência de aterosclerose subclínica, algo que não devemos encontrar em indivíduos jovens.”

Fausto Pinto, anterior presidente da European Society of Cardiology (ESC) referiu que se trata “de um tema importante para a saúde cardiovascular, e portanto, merece mais estudos.”

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