Compostos naturais encontrados em cerejas doces escuras podem ajudar a retardar o crescimento e a disseminação de uma das formas mais agressivas de cancro da mama. A conclusão é de um estudo de investigação da Universidade Texas A&M
No estudo os investigadores examinaram os efeitos das antocianinas – pigmentos vegetais naturais que conferem a frutas como cerejas doces escuras a cor vermelha intensa -, no cancro da mama triplo-negativo. Uma doença que é conhecida por ter opções de tratamento limitadas e possuir alto risco de metástase.
Os investigadores das Faculdades de Agricultura e Ciências da Vida e de Medicina Veterinária e Ciências Biomédicas, da Universidade Texas A&M e da Texas A&M AgriLife Research descobriram que o tratamento com antocianinas retardou o crescimento tumoral, reduziu a disseminação do cancro para múltiplos órgãos e alterou a atividade genética ligada à metástase e à resistência à terapia.
“O cancro da mama triplo-negativo é considerado ‘o pior’ porque é mais agressivo, de grau mais elevado e tem um índice mitótico mais alto, o que significa que as células cancerígenas dividem-se rapidamente”, disse Giuliana Noratto investigadora associada da AgriLife Research no Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade Texas A&M. “Todas essas características tornam mais provável que (o cancro) se espalhe para órgãos distantes e reapareça, em comparação com outros tipos de cancro da mama.”
Ao contrário de outros subtipos de cancro da mama, o cancro da mama triplo-negativo não possui recetores de estrogénio, recetores de progesterona e não expressa a proteína HER2. A proteína promotora do crescimento que ajuda a regular o crescimento e a multiplicação das células.
A investigadora esclareceu que devido à ausência desses alvos moleculares, o cancro responde a menos opções de tratamento, e que é mais provável que as metástases surjam em outros órgãos, principalmente nos pulmões e no cérebro.
Crescimento tumoral, metástase e atividade génica
No estudo, os investigadores não se concentraram apenas no tamanho do tumor, mas projetaram a investigação para avaliar tanto o crescimento tumoral quanto a disseminação metastática, que é a principal causa de mortes relacionadas ao cancro.
“Isso é importante porque a letalidade do cancro deve-se principalmente à metástase”, disse Giuliana Noratto. “Um tumor primário grande que não leva a metástases pode ser mais fácil de controlar, até mesmo curável, se removido.”
Para testar se as antocianinas poderiam influenciar tanto o crescimento quanto a disseminação tumoral, os investigadores recorreram a ratos que foram divididos em quatro grupos de tratamento. Um grupo de controlo, um grupo que recebeu antocianinas antes da implantação do tumor, um grupo tratado com o quimioterápico doxorrubicina após o desenvolvimento dos tumores e um grupo que recebeu tanto antocianinas como quimioterapia.
O modelo usado permitiu aos investigadores examinar as antocianinas como uma estratégia preventiva e avaliar se elas poderiam aumentar a eficácia da quimioterapia.
Neste caso os investigadores descobriram que ratos que receberam extratos de cereja doce escura ricos em antocianinas antes da implantação do tumor apresentaram crescimento tumoral mais lento, sem efeitos colaterais percetíveis. Os ratos tratados continuaram a ganhar peso durante todo o período do estudo.
No caso dos ratos tratados apenas com quimioterapia mostraram perdas de peso, e o crescimento do tumor diminuía mais tarde no estudo. Quando as antocianinas foram combinadas com a quimioterapia, o crescimento do tumor diminuiu mais cedo e os ratos mantiveram o peso.
Os investigadores também examinaram a expressão génica nos tumores, ou seja, quais genes ativados ou desativados nas células cancerígenas para ajudar a determinar quais dos processos celulares específicos são afetados pelas antocianinas da cereja doce escura.
O estudo descobriu que as antocianinas, isoladamente ou em combinação com quimioterapia, reduziram a atividade de genes associados à disseminação do cancro e à resistência à terapia, um processo no qual as células cancerígenas se adaptam para sobreviver apesar do tratamento.
Mas, o tratamento com antocianina também reduziu a disseminação do cancro para os pulmões, em comparação com o observado na ausência de tratamento ou apenas com quimioterapia. E ainda diminuiu a probabilidade do cancro se espalhar para outros órgãos, incluindo fígado, coração, rins e baço, embora o número e o tamanho dos tumores tenham variado entre os animais.
A análise do tecido
Para entender melhor como essas alterações moleculares se traduziam em alterações físicas no cancro, a equipa de investigadores baseou-se na histologia — o estudo de amostras de tecido ao microscópio – conduzida por Lauren Stranahan, patologista veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Ciências Biomédicas, da Universidade Texas A&M.
A patologista examinou a rapidez com que as células cancerígenas se dividiam – uma medida conhecida como índice mitótico – bem como a extensão da infiltração de células cancerígenas metastáticas em cada órgão e se esse dano tecidual poderia interferir na função do órgão, e referiu: “Alguns tumores apresentavam uma taxa mitótica mais alta, ou seja, se dividiam mais rapidamente”.
Mas, alguns tumores também apresentaram sinais de necrose, ou morte do tecido, que pode ocorrer quando tumores de crescimento rápido superam seu suprimento sanguíneo.
Além da estrutura do tumor, a patologista avaliou a infiltração de células imunes, incluindo linfócitos T, células imunes que desempenham um papel importante no reconhecimento e destruição de células anormais, incluindo células cancerígenas. E referiu “Ao avaliarmos a agressividade de um cancro, também podemos avaliar se esse cancro é capaz de reduzir o número de células T que o atacam”.
Compostos derivados da dieta como estratégias
Os resultados do estudo reforçam uma compreensão crescente na investigação do cancro e de que nenhum tratamento isolado é suficiente, e como referiu a patologista: “O que estamos entendendo sobre o cancro agora é que nenhum tratamento isolado será eficaz contra ele” e por isso “será necessário empregar uma série de tratamentos diferentes.”
Numa abordagem mais ampla, Giuliana Noratto afirmou que compostos derivados da dieta podem ajudar a atingir processos relacionados ao cancro que não são totalmente abordados pelas terapias padrão, oferecendo aos investigadores vias adicionais para explorar em conjunto com os tratamentos existentes.
No entanto, embora as descobertas apontem para novas direções promissoras, são necessárias investigações adicionais para melhor compreender como as antocianinas influenciam o comportamento tumoral, incluindo a segurança, absorção e potencial papel em conjunto com os tratamentos oncológicos existentes.














