Jejum pode contribuir para melhorar recuperação do intestino após radioterapia

Jejum pode contribuir para melhorar recuperação do intestino após radioterapia
Jejum pode contribuir para melhorar recuperação do intestino após radioterapia

Um novo estudo identificou uma bactéria intestinal que, quando combinada com jejum de curto prazo, ajuda a preparar o intestino delgado para se regenerar de forma mais eficaz após danos causados ​​pela radioterapia. A bactéria intestinal foi identificada num estudo pré-clínico do Centro do Cancro MD Anderson, da Universidade do Texas.

A descoberta mostra uma possível nova estratégia para reduzir os efeitos colaterais nocivos da radioterapia em pacientes com cancro, permitindo que médicos ofereçam um tratamento mais seguro e eficaz. O estudo, publicado na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences”, foi coliderado por Helen Piwnica-Worms, professora de Radiooncologia Experimental, e Kunal Rai, professor de Medicina Genómica.

“O jejum ajuda a preparar as células intestinais para responderem de forma mais rápida e eficaz após uma lesão, quase como treinar as células com um plano de preparação para emergências”, disse Helen Piwnica-Worms. “O estudo ajuda a explicar como esse plano é organizado e identifica uma bactéria fundamental envolvida na coordenação da resposta.”

Radiação em pacientes com cancro

A radioterapia é um tratamento comum para cancros abdominais, incluindo cancro do pâncreas, coloretal e ginecológico. Mas, o intestino delgado é altamente sensível à radiação, e no caso de danos no revestimento podem causar náuseas, diarreia, infeção e, em casos graves, complicações com risco de vida. Estes efeitos colaterais limitam frequentemente a quantidade de radiação que pode ser administrada com segurança.

Estudos pré-clínicos anteriores do Laboratório Piwnica-Worms demonstraram que o jejum antes do tratamento melhorava a recuperação intestinal após a radiação, mas os mecanismos biológicos por trás desse efeito não eram totalmente compreendidos.

Jejum e regeneração do intestino

Um jejum de 24 horas aumentou os níveis de uma bactéria benéfica chamada Akkermansia muciniphila, ou AKK, no intestino delgado. A AKK produz uma pequena molécula chamada propionato, que, em conjunto com outras alterações metabólicas desencadeadas pelo jejum, adiciona pequenas marcas químicas a proteínas chamadas histonas – em torno das quais o ADN está enrolado – dentro das células intestinais. Essas marcas de histonas alteram a forma como os genes são lidos sem alterar o próprio código genético.

Os marcadores químicos atuam como uma espécie de sistema de alerta antecipado, desenrolando o ADN das histonas para permitir a expressão génica num grupo de células intestinais que se acumulam durante o jejum. Essas células carregam programas genéticos associados à regeneração, como se tivessem sido pré-carregadas com instruções para rearranjo rápido. Após o tratamento com radiação, essas células expandiram-se e contribuíram para a regeneração do revestimento intestinal.

Os investigadores descobriram que os benefícios do jejum perdiam-se quando a AKK era removida seletivamente, o que confirma o papel essencial no processo de regeneração. A resposta regenerativa só retornava quando a AKK era reintroduzida juntamente com o jejum, o que sugere que ambos os componentes são necessários para produzir a resposta.

Assim, os investigadores concluíram que o jejum altera o estado biológico das células intestinais antes do tratamento, permitindo um processo de recuperação mais rápido e eficaz após a ocorrência de danos. Neste entendimento, a via recém-identificada, que conecta dieta, microbiota intestinal e regeneração tecidual, pode ajudar a explicar como o corpo coordena a recuperação após uma lesão e oferecer, indicam os investigadores, novas oportunidades para apoiar pacientes submetidos à radioterapia.

Avançar na investigação

Novas investigações podem levar a estudar se essa via regenerativa poderá ser usada para auxiliar na recuperação de outros tecidos saudáveis ​​afetados pelo tratamento do cancro. Se os resultados forem consistentes, a abordagem poderá ser testada em ensaios clínicos com pacientes submetidos à radioterapia abdominal.

Os investigadores indicaram estar interessados ​​em saber se a mesma estratégia poderá beneficiar outros tecidos de rápida divisão, como a medula óssea, dos danos relacionados com o tratamento.

Como é indicado pelos investigadores as descobertas sugerem novas estratégias que podem não exigir que os pacientes façam jejum antes do tratamento, como terapias microbianas ou abordagens baseadas em metabólitos.

“O jejum nem sempre é viável para pacientes com cancro, e o estudo apoia diversas outras potenciais maneiras para melhorar a recuperação após o tratamento”, referiu Kunal Rai. “Seja por meio de intervenções dietéticas, micróbios específicos ou seus metabólitos, o objetivo é ajudar a reparar o tecido saudável de forma mais eficaz enquanto os pacientes recebem as terapias contra o câncer de que precisam”, esclareceu o investigador.