Notícias sobre alterações climáticas privilegiam discursos políticos ou técnicos

Em Portugal e Espanha os media privilegiam nas notícias sobre alterações climáticas os discursos políticos ou técnicos e não a sociedade civil, concluiu estudo da Universidade de Coimbra. A seca e os fogos florestais ocuparam maior número de notícias em 2017 e 2018.

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Notícias sobre alterações climáticas privilegiam discursos políticos ou técnicos
Notícias sobre alterações climáticas privilegiam discursos políticos ou técnicos. Investigadora Neide Areia. Foto: DR

As notícias sobre as alterações climáticas publicadas em Portugal e Espanha em 2017 e 2018 privilegiam o discurso político ou técnico em detrimento da sociedade civil, conclui estudo do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC) e já publicado na revista científica “Science of The Total Environment”.

As notícias em Portugal e Espanha sobre alterações climáticas “dão destaque aos discursos políticos ou técnicos, sobretudo às discussões entre os vários partidos políticos, negligenciando os discursos e comportamentos dos indivíduos. No caso de Portugal, por exemplo, das 217 notícias avaliadas, apenas 12 favorecem a sociedade civil”, referiu a investigadora Neide Areia, autora do estudo, citada em comunicado da Universidade de Coimbra.

A investigadora acrescentou que a grande maioria das notícias “salientam framings alarmistas, por exemplo, o número de mortes ou a extinção em massa de espécies. Os jornalistas tendem a enquadrar os assuntos relacionados com o meio ambiente colocando excessivo foco nos problemas, sejam eles os efeitos das alterações climáticas, ou o fracasso das instituições políticas no combate às mesmas”.

O estudo mostra que as entre os fenómenos climáticos mais noticiados, a seca – e o seu impacto na agricultura – surge em primeiro lugar em ambos os países, com 157 notícias, seguindo-se, em Portugal, as notícias relacionadas aos fogos florestais.

Para a investigadora do CES, os resultados do estudo mostram que “os media devem democratizar a comunicação das alterações climáticas, aproximando a realidade do problema à realidade do indivíduo comum. Ao invés da significativa projeção dada a notícias relacionadas com discussões político-científicas do foro internacional ou de catástrofes ambientais ocorridas num outro ponto do mundo, os jornalistas devem enquadrar o assunto das alterações climáticas ao nível das comunidades locais e ao nível individual”.

Considerando a influência dos media na construção da opinião pública, Neide Areia defende que “um discurso mais proativo sobre as alterações climáticas pode fazer toda a diferença, influenciando na adoção de comportamentos sustentáveis (público em geral) e na implementação de políticas e leis ambientais (responsáveis políticos) ”.

A UC indicou que a investigadora vai alargar o estudo a França, Irlanda e ao Reino Unido, e que se encontra já a analisar 1600 notícias publicadas em 2017 e 2018. Numa fase seguinte, está prevista a do tipo de discurso político privilegiado nas notícias.

Neide Areia esclareceu: “De facto, uma comunicação democrática sobre assuntos ambientais – focada em mais notícias pró-climáticas, por exemplo, ações das comunidades para lidar com as mudanças climáticas, e não apenas nas falhas dos governos em relação à política ambiental ou desastres relacionados com o clima – melhoraria o papel ativo dos media no envolvimento dos indivíduos e ajudaria a promover respostas ativas da sociedade às mudanças climáticas”.

O estudo, que teve como objetivo analisar a cobertura mediática ibérica sobre mudanças climáticas para discutir melhor a sua influência no envolvimento do público com o tema, examinou perto de 500 notícias online, destas 217 em Portugal e 232 em Espanha, publicadas em 2017 e 2018 em vários órgãos de comunicação social de âmbito nacional.

A UC refere que as notícias foram recolhidas através da base de dados do Google News e selecionadas por ordem de relevância dos meios, em quatro períodos temporais: fevereiro a março de 2017; junho a julho de 2017; outubro a novembro de 2017; fevereiro a março de 2018.

A investigação foi realizada no âmbito do projeto europeu RiskAquaSoil: Plano Atlântico de Gestão de Riscos no Solo e na Água, centrado na deteção dos impactos das alterações climáticas nos espaços rurais, contribuindo para a gestão do risco, o uso dos recursos hídricos e do solo, a reabilitação de áreas agrícolas e o desenvolvimento de novas práticas.

O projeto RiskAquaSoil, iniciado em 2016, é liderado por Alexandre Tavares, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e tem a participação de cerca de quatro dezenas de investigadores de Espanha, França, Irlanda, Portugal e Reino Unido.

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