A doença renal diabética afeta um cada vez maior número de pessoas com diabetes e continua a ser a principal causa de doença renal terminal. Clinicamente, a condição é caracterizada por proteinúria persistente e declínio gradual da capacidade de filtração renal.
As terapias atuais de primeira linha, como inibidores da enzima conversora de angiotensina e bloqueadores dos recetores de angiotensina, geralmente retardam o declínio da função renal. No entanto, a melhora sustentada é incomum e os efeitos adversos relacionados ao tratamento podem limitar o seu uso a longo prazo.
Assiste-se a crescentes evidências que sugerem que a inflamação crónica desempenha um papel central na fibrose renal e na perda da função renal em pacientes com diabetes. Assim, como indica artigo da Academia Chinesa de Ciências, em face dos desafios, os cientistas consideram a necessidade de explorar tratamentos alternativos ou complementares que possam proteger a função renal, tendo como alvo os mecanismos inflamatórios.
Investigadores do Hospital Guang’anmen da Academia Chinesa de Ciências Médicas, em colaboração com diversos hospitais de medicina tradicional chinesa na China, publicaram na revista “Precision Clinical Medicine” os resultados de um ensaio clínico multicêntrico, randomizado e duplo-cego que avaliou uma fórmula fitoterápica tradicional chinesa para nefropatia diabética com macroalbuminúria.
O estudo, com duração de 24 semanas, envolveu 120 pacientes e comparou a terapia com o bloqueador do recetor de angiotensina irbesartana, avaliando os desfechos renais, a segurança e a melhora dos sintomas. Investigações mecanísticas, combinando proteómica, transcriptómica de célula única e modelos animais, foram conduzidas para desvendar as vias inflamatórias subjacentes aos efeitos clínicos.
O ensaio demonstrou que ambos os tratamentos alcançaram reduções semelhantes na proteinúria de 24 horas, um marcador padrão de lesão renal. No entanto, os pacientes que receberam a formulação fitoterápica apresentaram uma preservação significativamente melhor da função renal. A taxa de filtração glomerular estimada aumentou durante o período de tratamento, enquanto diminuiu no grupo de comparação, e os níveis de creatinina sérica diminuíram em vez de aumentarem. A análise estatística bayesiana corroborou ainda mais a alta probabilidade de que a terapia fitoterápica tenha proporcionado benefícios renais significativos.
Para entender por que essas diferenças ocorreram, os investigadores realizaram estudos mecanísticos. O perfil proteómico da inflamação Olink identificou reduções significativas nos mediadores inflamatórios circulantes, particularmente CX3CL1 e MCP-1, após o tratamento. O sequenciamento de RNA de núcleo único dos rins de ratos diabéticos revelou que essas moléculas são expressas predominantemente em células endoteliais, mesangiais e tubulares – atores-chave na inflamação e fibrose renal. O tratamento suprimiu sua expressão em populações celulares específicas, sugerindo um efeito anti-inflamatório específico para cada tipo celular.
Testes com animais reforçaram as descobertas, dado que os ratos que receberam a terapia à base de ervas apresentaram melhora nos marcadores bioquímicos renais e redução dos danos estruturais, incluindo menos fibrose e expansão mesangial. Juntos, os resultados clínicos e experimentais indicam que a terapia pode proteger a função renal atenuando a lesão induzida pela inflamação, em vez de agir apenas por meio do controlo hemodinâmico.
“O aspeto mais impressionante do estudo é a melhora na função renal, e não apenas a estabilização”, disse um dos investigadores responsáveis pelo estudo. “Muitas terapias existentes retardam a deterioração, mas poucas demonstram um aumento real na capacidade de filtração. Ao integrar ensaios clínicos com análises moleculares e de células individuais, conseguimos vincular esses benefícios funcionais a vias inflamatórias específicas. Essa abordagem sistémica fortalece a confiança de que os efeitos observados são biologicamente significativos e não simplesmente variação estatística.”
Para os investigadores se forem confirmadas em ensaios clínicos mais longos e com amostras maiores, as descobertas podem ampliar as opções de tratamento para pacientes com nefropatia diabética, particularmente aqueles que não toleram os medicamentos padrão ou que permanecem com alto risco residual. O estudo destaca a inflamação como um alvo terapêutico viável e sugere que terapias multicomponentes podem exercer efeitos sinérgicos em vias complexas da doença. Além dessa formulação específica, o trabalho fornece uma estrutura para integrar a medicina tradicional com ensaios clínicos modernos e tecnologias ómicas. Trata-se de abordagens que podem acelerar a descoberta de terapias complementares destinadas a preservar a função renal e melhorar a qualidade de vida de milhões de pacientes em todo o mundo.














