Um novo estudo mostra que o vírus da influenza D, que investigadores referem ter passado despercebido desde deteção em animais em 2011, pode replicar-se vigorosamente em células humanas e tecido pulmonar.
Para os cientistas, os resultados do estudo sugerem que o vírus da influenza D tem um grande potencial de transmissão para humanos. Algumas pessoas que trabalham com gado, considerado o principal hospedeiro do vírus, apresentaram anticorpos contra a influenza D no sangue, mas até o momento não foi detetada nenhuma infeção humana ativa.
O estudo já publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências (Proceedings of the National Academy of Sciences) também mostrou que várias variantes geneticamente diferentes do vírus influenza D, isoladas de bovinos e suínos (outro hospedeiro animal), foram tão eficazes na replicação em células do trato respiratório humano como os vírus influenza A – os tipos de gripe associados tanto a doenças sazonais modernas como a pandemias históricas.
“Todos os vírus, apesar da distância genética entre eles, apresentaram capacidade replicativa semelhante nessas células e tecidos humanos”, afirmou o autor principal do estudo, Cody Warren, da Universidade Estadual de Ohio.
“Parece haver muitas espécies animais suscetíveis aos vírus da gripe D, o que sugere que talvez eles possam evoluir de forma diferente em diferentes hospedeiros. O que é óbvio é que infeções zoonóticas estão a ocorrer”, explicou o cientista.
Cody Warren acrescentou: “Esta é uma oportunidade, se de facto estivermos diante dela, para investir em vigilância e na compreensão básica de sua biologia, de modo que possamos estar preparados caso ela surja no futuro.”
Os vírus da influenza D de porcos usados no estudo foram recolhidos como parte da vigilância de longo prazo da gripe suína – um vírus da influenza tipo A – em feiras municipais e estaduais lideradas por Andrew Bowman, da Universidade Estadual de Ohio.
“O vírus da gripe D apareceu nas nossas amostras, o que nos levou a questionar qual é o risco na interface humano-animal”, disse Andrew Bowman, que é coautor do estudo.
“A crença atual é que os bovinos são os hospedeiros naturais da gripe D. Portanto, os porcos podem ser um hospedeiro secundário, ou não. O facto de o vírus ter sido detetado em porcos é algo que estávamos a tentar entender: será que esse é um caminho potencial para o vírus se adaptar e se tornar mais transmissível em humanos? Então, o componente suíno está a tentar entender qual é o papel do porco na influenza D”, explicou Andrew Bowman.
O laboratório dirigido por Cody Warren começou a testar a replicação do vírus influenza D em células que imitam as vias aéreas humanas, diferenciando células epiteliais pulmonares derivadas de pacientes na interface ar-líquido – condições celulares que o vírus encontraria naturalmente.
“Quando o vírus começou a multiplicar-se nesses tecidos tão bem como o vírus da influenza A, decidimos aproveitar outro sistema fisiologicamente relevante para avaliar a variedade de tipos de células afetados por esse vírus: os tecidos”, explicou Cody Warren.
Os cientistas compararam o crescimento dos vírus influenza tipo D e A em tecidos pulmonares humanos e suínos, e descobriram que ambos os tipos de vírus se replicaram de forma eficiente em tecidos pulmonares de ambas as espécies.
Os ensaios em células e tecidos também mostraram uma diferença fundamental entre os dois tipos de gripe: o vírus da influenza D, apesar de se propagar bem, não estimulou uma resposta imune antiviral robusta nas células infetadas, enquanto o vírus da influenza A o fez.
Ensaios separados em culturas de células mostraram que o crescimento do vírus influenza D era restringido se as células fossem previamente sensibilizadas pela proteína interferon – sugerindo que as células humanas possuem mecanismos potentes para restringir a infeção viral.
Em animais infetados, a influenza D gera sintomas respiratórios dos quais bovinos e suínos se recuperam, sugerindo que seus sistemas imunológicos estão atuando para combater a infeção. Em humanos, a maioria das infeções virais desencadeia a libertação de interferon, que produz inflamação e eleva a temperatura corporal – levando aos sintomas que nos fazem sentir mal.
As descobertas iniciais levantam questões importantes: Será que os humanos podem ter sido infetados, mas não terem apresentado sintomas, o que significa que a gripe D não representa um risco grave para a saúde? Ou será que ela é tão sorrateira que consegue esconder-se do sistema imunológico, deixando-nos incapazes de a combater?
“Essas são lacunas que ainda não compreendemos totalmente”, disse Cody Warren, e acrescentou: “O vírus replica-se em níveis muito altos, mas não desencadeia uma resposta robusta de interferon. Será que se comportaria de maneira diferente no corpo de uma pessoa em comparação com os sistemas celulares ou de tecido? Isso ainda está em debate.”
“Parece que a única prova irrefutável que nos falta é um vírus isolado de uma pessoa. Há indícios de histórico de exposição, mas não necessariamente de infeção ativa”, esclareceu o cientista.
Andrew Bowman recolheu muitos outros vírus da influenza D de porcos quando fazia vigilância contínua da gripe suína e planeia analisar as amostras para avaliar se os vírus estão a sofrer mutações e de que forma.
“O que está a chamar a atenção para o vírus da influenza D agora é o facto de ele ser reconhecido como uma causa de doença respiratória em bovinos, e certamente já vimos surtos da doença em suínos”, referiu Andrew Bowman. “Causar doença em algumas espécies hospedeiras deixa-nos um tanto preocupados com o que ele pode causar em humanos. Pode não causar doença nessa forma específica, mas em uma forma evoluída, esse potencial existe.”














