Joe Silvey: um pioneiro açoriano na génese multicultural do Canadá

Daniel Bastos, Historiador e Escritor
Daniel Bastos, Historiador e Escritor. Foto: DR

O Canadá contemporâneo constitui uma das expressões mais significativas de uma sociedade construída a partir do encontro entre diferentes povos, culturas e identidades. Mais do que uma realidade geográfica, o país afirma-se como um projeto histórico assente na diversidade, onde os Povos Indígenas, as populações de origem europeia e as sucessivas vagas migratórias provenientes dos quatro cantos do mundo contribuíram para formar uma das sociedades mais plurais e inclusivas da atualidade. Esta matriz multicultural, reconhecida como um dos elementos centrais da identidade canadiana, encontra-se profundamente associada à capacidade do país de transformar a diversidade cultural numa força coletiva e num dos pilares da sua afirmação internacional.

A história do Canadá é, assim, também uma história de mobilidades, encontros e trajetórias individuais que anteciparam esse ideal multicultural muito antes da sua consagração política no século XX. Entre essas histórias de pioneirismo encontra-se a presença portuguesa, uma dimensão essencial para compreender a riqueza e a complexidade da construção da sociedade canadiana. Antes da grande vaga migratória portuguesa das décadas de 1950 e 1960, fortemente marcada pela presença açoriana e responsável pela chegada ao Canadá de milhares de homens e mulheres, já alguns pioneiros lusos haviam atravessado oceanos, integrado novas comunidades e participado na formação dos primeiros núcleos humanos da futura nação canadiana.

Entre essas figuras destaca-se Joe Silvey, nome pelo qual ficou conhecido José Silva, um açoriano natural da ilha do Pico cuja vida extraordinária simboliza, de forma exemplar, a capacidade de adaptação, encontro e diálogo entre culturas que esteve na génese da identidade multicultural canadiana.

Nascido no arquipélago dos Açores, Joe Silvey terá abandonado a sua terra natal em 1846, ainda adolescente, embarcando num navio baleeiro norte-americano, numa época em que a baleação constituía uma das principais atividades económicas da região e uma importante via de mobilidade para muitos açorianos. Depois de ter passado por diferentes territórios da costa do Pacífico e após o declínio do ciclo da corrida ao ouro na Califórnia, que atraiu milhares de aventureiros em meados do século XIX, fixou-se na região da atual Colúmbia Britânica por volta de 1860.

Joe Silvey
Joe Silvey

Em Vancouver, então ainda uma pequena comunidade em formação, Joe Silvey protagonizou uma história excecional de contacto e convivência entre culturas. Casou com Khaltinaht, neta do chefe indígena Kiapilano, uma importante liderança das comunidades originárias da região, estabelecendo uma união que simboliza a própria génese multicultural do Canadá. Dessa relação nasceu Elizabeth, considerada a primeira criança de ascendência europeia nascida no território que viria a constituir a cidade de Vancouver, tornando-se um símbolo precoce do encontro entre diferentes povos, culturas e tradições.

Em 1867, ano da criação da Confederação Canadiana, Joe Silvey integrou a primeira geração de habitantes da nova federação, assumindo um lugar pioneiro na construção da sociedade canadiana. Nesse período abriu em Gastown, núcleo histórico de Vancouver, o conhecido estabelecimento The Hole in the Wall (“O Buraco na Parede”), um saloon que rapidamente se tornou um ponto de encontro numa cidade marcada pela chegada de diferentes comunidades e por profundas transformações económicas e sociais.

Após a morte da sua primeira mulher, Joe Silvey vendeu o estabelecimento e dedicou-se à atividade piscatória, instalando-se em Stanley Park. Foi pioneiro na utilização da técnica da rede de cerco e tornou-se o primeiro pescador a obter uma licença oficial para exercer essa modalidade na região, contribuindo para o desenvolvimento da economia marítima local. Mais tarde, após o casamento com Lucy, uma mulher pertencente à comunidade indígena salish, constituiu uma numerosa família com dez filhos e fixou-se em Read Island, onde adquiriu terras e partilhou a prosperidade alcançada através da pesca com a comunidade envolvente.

Falecido em 1902, Joe Silvey deixou uma descendência profundamente ligada à história social e cultural da Colúmbia Britânica. A sua vida representa uma narrativa de mobilidade, adaptação e encontro entre mundos distintos: um açoriano que atravessou oceanos, estabeleceu laços com comunidades indígenas, participou no desenvolvimento de uma cidade emergente e ajudou, através da sua própria trajetória familiar e profissional, a antecipar os valores de diversidade, convivência e inclusão que hoje caracterizam o Canadá multicultural.

O reconhecimento do seu legado ultrapassou as fronteiras canadianas. Em 25 de abril de 2015, a Câmara Municipal de Vancouver inaugurou, em Stanley Park, um monumento em sua homenagem, perpetuando a memória de um dos pioneiros da história da cidade e valorizando igualmente a contribuição portuguesa para a formação da sociedade canadiana. Este tributo assume particular significado para a comunidade luso-canadiana, uma das mais dinâmicas comunidades da diáspora portuguesa no mundo, que ao longo das últimas décadas afirmou a sua presença nos domínios económico, cultural, político e social do Canadá.

Mais recentemente, o legado de Joe Silvey foi também celebrado em Portugal, com a inauguração, em Belém, de uma escultura da autoria de Luke Marston, trineto de Joe Silvey, artista profundamente ligado às suas raízes luso-indígenas. Esta homenagem constitui não apenas o reconhecimento de uma figura pioneira da história canadiana, mas também uma ponte simbólica entre os Açores, Portugal e o Canadá, reafirmando o papel da diáspora portuguesa na construção de sociedades plurais e no permanente diálogo entre culturas.

Autor: Daniel Bastos, Historiador e Escritor