John Philip Sousa: o “Rei das Marchas” e o legado português na história dos Estados Unidos

Daniel Bastos, Historiador e Escritor
Daniel Bastos, Historiador e Escritor. Foto: DR

A história da emigração portuguesa para os Estados Unidos da América constitui um dos capítulos mais marcantes da diáspora portuguesa e da secular relação entre as duas nações. Ao longo de quase dois séculos, sucessivas gerações de portugueses atravessaram o Atlântico em busca de melhores oportunidades de vida, levando consigo a língua, a cultura, as tradições e um notável espírito de iniciativa e de trabalho. Atualmente, a comunidade luso-americana, composta por mais de um milhão de pessoas de ascendência portuguesa, constitui uma das mais relevantes e prestigiadas comunidades de origem europeia nos Estados Unidos, representando um dos mais sólidos e duradouros elos humanos, históricos e culturais entre Portugal e a principal potência mundial.

A presença portuguesa na história norte-americana, porém, não se mede apenas pelos números da emigração. Mede-se igualmente pelo legado deixado por personalidades que, descendendo de emigrantes portugueses, alcançaram projeção nacional e internacional nas mais diversas áreas, da ciência às artes, da política ao desporto. Entre essas figuras tutelares sobressai, de forma incontornável, o compositor e maestro luso-americano John Philip Sousa (1854–1932), celebrado como o incontestado “Rei das Marchas”, cuja obra se tornou um dos mais poderosos símbolos da identidade musical dos Estados Unidos.

John Philip Sousa nasceu em Washington, D.C., a 6 de novembro de 1854, sendo o terceiro dos dez filhos de João António Sousa, emigrante português natural dos Açores. Segundo Frederick G. Williams, Barbara Fields e Eduardo M. Dias, na obra Exploring a New World: A Portuguese-American Reader, o seu pai terá integrado a Banda Regimental de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, antes de emigrar para os Estados Unidos. A mãe, Marie Elisabeth Trinkaus, era de origem austríaca. Foi, assim, num ambiente familiar profundamente marcado pela música e pela diversidade cultural que cresceu aquele que viria a tornar-se uma das figuras maiores da história musical norte-americana.

A vocação musical de John Philip Sousa revelou-se muito cedo. Ainda criança iniciou os estudos de violino, teoria musical e composição, demonstrando um talento invulgar que rapidamente o conduziu à carreira militar como músico da Banda do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Em 1880 assumiu a direção daquela prestigiada formação, iniciando um período de profunda renovação artística que consolidou o seu prestígio como compositor e maestro.

Em 1892 fundou, em New Jersey, a célebre Sousa Band, conjunto com o qual iniciou uma carreira absolutamente extraordinária. Até ao início da década de 1930 realizou mais de quinze mil concertos nos Estados Unidos, na Europa e noutros continentes, tornando-se um verdadeiro embaixador da música norte-americana. No final do século XIX, a sua banda representou os Estados Unidos na Exposição Universal de Paris, contribuindo decisivamente para a projeção internacional da cultura musical do país.

Entre as numerosas composições que produziu, destaca-se Semper Fidelis, escrita em 1888 e posteriormente adotada como marcha oficial do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Contudo, seria The Stars and Stripes Forever que o consagraria definitivamente. Executada pela primeira vez em público, a 14 de maio de 1897, em Filadélfia, durante a inauguração de uma estátua de George Washington, na presença do Presidente William McKinley, esta marcha transformou-se rapidamente num dos mais emblemáticos símbolos patrióticos dos Estados Unidos. Décadas mais tarde, o Congresso norte-americano reconheceu-lhe oficialmente o estatuto de marcha nacional, perpetuando o génio criativo do seu autor na memória coletiva da nação.

A dimensão do legado de John Philip Sousa ultrapassa, contudo, a composição musical. Para além das mais de uma centena de marchas, escreveu operetas, peças orquestrais, obras de ficção, poesia, ensaios, manuais de música, crónicas jornalísticas e uma autobiografia, revelando uma extraordinária versatilidade intelectual. O seu nome ficou igualmente associado à criação do sousafone, instrumento de sopro da família das tubas, concebido para facilitar a execução musical em desfile e que continua, ainda hoje, a ser um elemento indispensável nas bandas militares e filarmónicas de todo o mundo.

John Philip Sousa faleceu em Reading, no Estado da Pensilvânia, a 6 de março de 1932. O seu corpo foi trasladado para Washington, onde recebeu honras oficiais e foi sepultado no histórico Cemitério do Congresso, distinção reservada às personalidades que marcaram profundamente a vida pública norte-americana.

A trajetória de John Philip Sousa constitui um extraordinário testemunho da capacidade de integração e de afirmação das comunidades portuguesas além-fronteiras. Filho de um emigrante açoriano, soube honrar as suas origens sem deixar de contribuir decisivamente para a construção da identidade cultural da pátria que o viu nascer. A sua vida simboliza aquilo que tantas gerações de portugueses alcançaram na diáspora: preservar a memória das raízes enquanto participavam ativamente no progresso das sociedades de acolhimento.

Mais de nove décadas após a sua morte, John Philip Sousa permanece como uma das figuras maiores da cultura norte-americana e, simultaneamente, como um dos mais ilustres representantes da herança portuguesa nos Estados Unidos. O seu percurso recorda-nos que os laços entre Portugal e os Estados Unidos não se explicam apenas pela diplomacia ou pelas relações económicas, mas também pelas histórias de milhares de emigrantes que, com talento, trabalho e dedicação, ajudaram a aproximar os dois países. Entre essas histórias, a de John Philip Sousa ocupa um lugar singular, constituindo um motivo de legítimo orgulho para Portugal e para toda a diáspora portuguesa, cuja contribuição continua a enriquecer a identidade plural da sociedade norte-americana e a fortalecer uma amizade secular entre as duas nações.

Autor: Daniel Bastos, Historiador e Escritor