Uma vacina criada por investigadores da Universidade da Geórgia para combater múltiplas infeções fúngicas potencialmente fatais conseguiu induzir imunidade protetora em modelos animais pré-clínicos, mantendo também a biodiversidade da microbiota intestinal.
Neste primeiro estudo de avaliação do efeito da vacina sobre as comunidades fúngicas e bacterianas que ocorrem naturalmente no intestino, conhecidas como microbioma, mostrou sucesso.
A vacina, NXT-2, pode ser a primeira a proteger contra e potencialmente tratar infeções fúngicas patogénicas.
Mas, os investigadores lembram que nem todos os fungos são maus. Certas estirpes de Candida e Aspergillus podem ser encontradas em microbiomas intestinais saudáveis, e apenas representam uma ameaça quando o seu crescimento fica descontrolado.
Os resultados do estudo confirmam que a vacina oferece proteção contra fungos patogénicos sem alterar significativamente as populações de fungos ou bactérias residentes no intestino.
“Já demonstramos anteriormente que a vacina NXT-2 é muito eficaz na eliminação ou no controlo de infeções fúngicas prejudiciais”, disse, citada em comunicado, Karen Norris, da Faculdade de Medicina Veterinária da UGA e autora principal do estudo. “Era importante determinar se essa resposta imunológica perturbaria o equilíbrio dos micróbios benéficos no intestino.”
“Este estudo demonstra que não há alterações significativas após a imunização bem-sucedida com NXT-2”, acrescentou Karen Norris.
As infeções fúngicas matam milhões e custam milhares de milhões todos os anos
Os investigadores revelaram que a vacina já demonstrou eficácia contra os três patógenos fúngicos mais comuns em quatro modelos animais pré-clínicos. Os três fungos são responsáveis por mais de 80% das infeções fúngicas fatais.
A vacina também demonstrou eficácia contra Candida auris, um tipo de fungo que se dissemina facilmente, principalmente em ambientes hospitalares, e pode levar a doenças graves ou até mesmo à morte. A C. auris também costuma ser resistente a vários medicamentos antifúngicos, o que levou os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, a classificá-la como uma ameaça urgente à saúde pública.
As infeções fúngicas matam milhões de pessoas todos os anos e custam milhares de milhões em despesas com saúde. Elas também duplicam os custos de hospitalização, duplicam a duração das internações e duplicam o risco de morte em pacientes hospitalizados, revelou um estudo anterior da Universidade da Geórgia (UGA) .
Não existem vacinas eficazes para proteger contra infeções fúngicas
“Preservar o equilíbrio dos organismos que compõem o microbioma intestinal é fundamental. E esses resultados apoiam o desenvolvimento da primeira vacina antifúngica com ampla proteção”, revelou Karen Norris, da Faculdade de Medicina Veterinária.
Os tratamentos atuais não conseguem acompanhar o ritmo, já que os fungos estão a tornar-se cada vez mais resistentes aos medicamentos. Além disso, alguns antifúngicos demonstraram alterar as populações de fungos e bactérias inofensivas no intestino.
Anteriormente consideradas uma ameaça restrita principalmente a pessoas imunocomprometidas, as infeções fúngicas patogénicas estão a aumentar na população em geral.
Estudos anteriores de Karen Norris, Emily Rayens, e de José Cordero, da Faculdade de Saúde Pública da UGA, em 2022, pessoas com diabetes, doença pulmonar obstrutiva crónica ou coinfeções, como a gripe, apresentam maior risco de desenvolver infeções fúngicas.
Efeitos da vacina sobre o microbioma intestinal
Os estudos sobre como as vacinas afetam o microbioma intestinal ainda são limitados. No entanto, as investigações que sugerem que o microbioma desempenha um papel fundamental na resposta imune e na eficácia da vacinação estão a aumentar.
A composição da microbiota intestinal varia muito de pessoa para pessoa. Mesmo a mesma pessoa pode apresentar alterações nas bactérias e fungos ao longo do tempo.
Este estudo é a primeira análise abrangente das comunidades bacterianas e fúngicas após a vacinação antifúngica.
“Preservar o equilíbrio dos organismos que compõem o microbioma intestinal é fundamental”, disse Karen Norris. “E esses resultados apoiam o avanço da primeira vacina antifúngica com ampla proteção.”
O microbioma intestinal de primatas não humanos assemelha-se muito ao dos humanos, permitindo que os investigadores examinem o efeito do NXT-2 nos níveis naturais de bactérias e fungos no trato digestivo.
O estudo, já publicado na revista” Mycology” sugere que os anticorpos da vacina têm como alvo os fungos patogénicos em infeções invasivas, deixando intactas as populações de fungos inócuos.















