Hepatite C: é possível curar, mas é preciso diagnosticar

Francisco Silva, Médico em medicina interna, Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado da SPMI
Francisco Silva, Médico em medicina interna, Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado da SPMI. Foto: DR

Hoje, a hepatite C é uma das poucas doenças crónicas que se cura com comprimidos, em 8 a 24 semanas e com taxas de sucesso superiores a 95%. Ainda assim, continua a matar: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 47 milhões vivem com infeção crónica pelo vírus da hepatite C (VHC) e, em 2024, morreram aproximadamente 239 mil pessoas, sobretudo por cirrose e cancro do fígado.

O problema? O silêncio: a hepatite C raramente dá sintomas durante anos, por vezes décadas, e muitas pessoas só descobrem a infeção quando o fígado já está gravemente doente.

Portugal tem uma história de que se pode orgulhar. Desde 2015, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) trata todas as pessoas com hepatite C, independentemente do estadio de doença. Segundo o Programa Nacional para as Hepatites Virais da Direção-Geral da Saúde (DGS), até julho de 2025 tinham sido autorizados mais de 36 mil tratamentos, com taxa de cura acima de 97%. Os resultados vêem-se: menos mortes, menos internamentos, menos complicações, menos novas infeções. Quem se trata, deixa de transmitir o vírus a outras pessoas.

Mas curar quem está diagnosticado não basta. Para eliminar a hepatite C como problema de saúde pública até 2030, meta da OMS, é preciso encontrar quem ainda não sabe que está infetado. Estimava-se que cerca de 40 mil portugueses tem a infeção por diagnosticar.

Quem deve fazer o teste? O vírus passa de uma pessoa para outra pelo sangue. O teste deve ser feito, pelo menos uma vez na vida, e em especial em quem já usou drogas injetáveis (mesmo que tenha sido há muitos anos e só uma vez), quem esteve preso, quem recebeu sangue ou fez cirurgias antes de julho de 1992, e quem partilhou lâminas ou fez tatuagens e piercings sem condições de segurança ou higiene. O teste é uma análise ao sangue – há testes de rastreio rápidos ou a análises pode ser pedida pelo seu médico de família.

Há uma barreira que nenhum medicamento resolve: o estigma. O receio do julgamento adia o teste e, com ele, a cura. Importa lembrar que a hepatite C não escolhe idade, classe social ou profissão e que, uma vez curada, a pessoa deixa de transmitir o vírus a outras.

Em outubro assinalamos o Dia Internacional de Consciencialização para a Hepatite C, e o Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna deixa um apelo: fale com o seu médico e faça o teste. Pode ser o primeiro passo para a cura.

Autor: Francisco Silva, Médico em medicina interna, Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado da SPMI