Alexandre Aires da Silva: um português na liderança mundial da ciência das pescas

Daniel Bastos, Historiador e Escritor
Daniel Bastos, Historiador e Escritor. Foto: DR

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua reconhecida vocação empreendedora. Ao longo de décadas, inúmeros compatriotas construíram percursos de sucesso, criando empresas sólidas e assumindo posições de relevo nos planos cultural, social, económico, político e científico.

Num tempo em que o mundo assenta, cada vez mais, numa sociedade do conhecimento, em que a inovação tecnológica e a produção científica constituem motores fundamentais de desenvolvimento, a diáspora científica portuguesa afirma-se como um ativo estratégico para a projeção internacional de Portugal e para a consolidação de uma ciência sem fronteiras.

É neste contexto que se destaca o percurso do investigador português Alexandre Aires da Silva, Coordenador da Investigação Científica da Comissão Interamericana do Atum Tropical (IATTC) e membro do Comité Consultivo Científico da International Seafood Sustainability Foundation (ISSF).

Alexandre Aires da Silva © Inter-American Tropical Tuna Commission (IATTC)
Alexandre Aires da Silva © Inter-American Tropical Tuna Commission (IATTC)

Nascido em 1971, em Lourenço Marques — atual Maputo —, na então província ultramarina portuguesa de Moçambique, Alexandre Aires da Silva licenciou-se, em 1996, em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Iniciou posteriormente a sua carreira profissional como técnico superior de investigação no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, instituição que tem desempenhado um papel relevante no desenvolvimento das ciências do mar em Portugal.

Em 2000, iniciou o doutoramento como bolseiro do Programa Fulbright e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), na prestigiada School of Aquatic and Fishery Sciences da University of Washington, em Seattle, nos Estados Unidos da América. Viria a concluir o doutoramento, em 2008, distinguido com o Faculty Merit Award, na sequência de investigação avançada em métodos quantitativos aplicados à avaliação de recursos pesqueiros.

Na sua tese de doutoramento, aprofundou o trabalho anteriormente desenvolvido nos Açores, centrando-se na dinâmica populacional da tintureira em todo o Atlântico Norte.

O seu currículo académico e a elevada qualidade da sua atividade científica contribuíram decisivamente para que integrasse, em 2007, a equipa da Comissão Interamericana do Atum Tropical (IATTC), sediada em La Jolla, na área metropolitana de San Diego, no estado norte-americano da Califórnia, no então designado Programa Atum-Peixes-de-Bico. Entre as suas principais responsabilidades encontrava-se a avaliação da unidade populacional de atum-patudo no Oceano Pacífico Oriental.

Importa recordar que San Diego, segunda maior cidade da Califórnia, chegou a ser conhecida, em meados do século XX, como a “capital mundial do atum”. A esse protagonismo esteve profundamente ligada a histórica comunidade luso-americana da região, composta sobretudo por emigrantes oriundos dos Açores e da Madeira, que desempenharam um papel determinante no desenvolvimento da indústria conserveira e da pesca do atum.

Desde 2017, Alexandre Aires da Silva exerce funções de Coordenador da Investigação Científica da IATTC, organização regional responsável pela conservação e gestão sustentável do atum e de outras espécies marinhas no Oceano Pacífico Oriental, numa vasta área marítima que se estende do Alasca ao Chile.

Paralelamente, integra o Comité Consultivo Científico da Fundação Internacional para a Sustentabilidade dos Produtos do Mar, entidade internacional de referência na promoção da sustentabilidade das pescas do atum e na conservação dos ecossistemas marinhos.

O papel da União Europeia enquanto membro da IATTC, bem como a sua condição de anfitriã, contribuíram decisivamente para que a 104.ª Reunião Anual da Comissão Interamericana do Atum Tropical se realize este ano em Lisboa, entre 31 de agosto e 4 de setembro.

O encontro internacional reunirá delegações governamentais, cientistas e representantes das principais partes interessadas das Américas, da Europa e da Ásia, para debater a gestão sustentável da pesca do atum no Oceano Pacífico Oriental. Será um momento particularmente relevante, em que ciência, política e cooperação internacional convergirão em Lisboa.

No âmbito da reunião anual da IATTC, prevê-se igualmente, em articulação com o Museu de Marinha, uma homenagem aos pescadores portugueses que marcaram a história da frota do atum em San Diego. Uma iniciativa que contará com o contributo decisivo de Alexandre Aires da Silva, mas também com o empenho do Cônsul Honorário de Portugal em San Diego, Idalmiro da Rosa, destacado promotor da portugalidade, e de Kenny Alameda, empresário luso-descendente de reconhecido sucesso na Califórnia.

O percurso de Alexandre Aires da Silva constitui, assim, um exemplo maior da capacidade de afirmação internacional da diáspora científica portuguesa, demonstrando como o talento, o conhecimento e a ligação às raízes nacionais continuam a projetar Portugal nos mais elevados patamares da ciência global contemporânea.

Autor: Daniel Bastos, Historiador e Escritor