Subir para uma mota tem algo de medieval

Paulo Freitas do Amaral, Professor de História
Paulo Freitas do Amaral, Professor de História. Foto: DR

Há gestos que sobrevivem às épocas, às revoluções tecnológicas e às mudanças da própria civilização. Enquanto historiador, habituei-me a procurar continuidades onde a maioria apenas identifica ruturas. Talvez seja por isso que nunca consegui olhar para uma mota apenas como um meio de transporte. Sempre que passo a perna por cima dela tenho a estranha sensação de estar a repetir um gesto que acompanha a Humanidade há muitos séculos. Antes de existirem motores, homens e mulheres montavam cavalos para trabalhar, combater, transportar mensagens, partir em peregrinação ou simplesmente regressar a casa. Hoje fazemos praticamente o mesmo movimento. Mudaram os materiais, mudou a velocidade e mudou o combustível, mas o corpo continua a assumir quase a mesma postura de quem, durante centenas de anos, encontrou no cavalo a extensão natural da sua liberdade.

Subir para uma mota tem algo de medieval ou mesmo milenar…

Não é apenas a posição do corpo, com um pé de cada lado da montada e os olhos sempre fixos no horizonte. É a forma como participamos na viagem. Tal como um cavaleiro não se limitava a sentar-se sobre o cavalo, também um motociclista não é um simples passageiro. O equilíbrio, a leitura constante do terreno, a antecipação dos obstáculos e a relação quase intuitiva entre homem e máquina criam uma ligação que nenhum automóvel consegue oferecer.

O automóvel representou um dos maiores avanços tecnológicos da História, mas, paradoxalmente, também nos fechou. Fechou-nos dentro de uma caixa de metal, atrás de vidros, rodeados de isolamento acústico, climatização e conforto. Protegeu-nos do vento, da chuva, do frio e do calor, mas também nos afastou dos cheiros da terra, das mudanças de temperatura, do canto das aves, do aroma dos pinhais e do simples prazer de sentir a paisagem. Hoje atravessamos dezenas de quilómetros sem verdadeiramente perceber o mundo que passa ao nosso lado. Deslocamo-nos muito mais depressa, mas experimentamos muito menos a viagem.

A mota faz precisamente o contrário. Obriga-nos a voltar a fazer parte da paisagem. Não a observamos através de um para-brisas; atravessamo-la com todos os sentidos. No mesmo percurso reconheço o cheiro das flores silvestres, a terra acabada de lavrar, a humidade que anuncia um rio antes de ele aparecer, o ar fresco de um bosque ou o calor das planícies alentejanas num fim de tarde de verão. Já vi cegonhas levantarem voo a poucos metros de mim, quase à velocidade da mota, como se durante alguns segundos seguíssemos o mesmo caminho. Nenhum automóvel consegue oferecer esta intimidade com o território.

Talvez os viajantes medievais conhecessem o mundo de forma muito semelhante. Não atravessavam simplesmente a paisagem; pertenciam-lhe. Sabiam reconhecer os caminhos pelo cheiro das árvores, pela direção dos ventos, pelo som da água ou pela posição do Sol. Viajar significava viver cada quilómetro, porque o caminho fazia parte da própria experiência.

Até os pequenos rituais parecem transportar uma memória antiga. Durante séculos, quem viajava tinha de parar para dar água ao cavalo, verificar as ferraduras, descansar o animal antes de prosseguir. Hoje paramos para abastecer, confirmar a pressão dos pneus ou ajustar o equipamento. O ritual permanece surpreendentemente semelhante.

Existe ainda uma forma moderna de cavalaria que me impressionou desde os primeiros dias em que conduzi uma mota. Quando dois motociclistas se cruzam, levantam discretamente a mão esquerda em sinal de saudação. Não importa quem são, de onde vêm ou que mota conduzem. Durante um instante reconhecem-se como membros da mesma irmandade. Poucas comunidades conservam, ainda hoje, um gesto tão simples e tão carregado de significado.

É verdade que andar de mota é perigoso. Dificilmente existirá alguém que tenha passado décadas sobre duas rodas sem alguma vez cair. Também eu comecei a andar de mota já depois dos trinta anos e uma queda, num dia de chuva intensa, levou-me a abandonar esta paixão durante alguns anos. Mas quem, na Idade Média, passou uma vida inteira a cavalo sem nunca cair? A queda fazia parte da aprendizagem e nunca foi suficiente para convencer um cavaleiro a abandonar a sua montada. Também entre motociclistas o risco ensina prudência, mas raramente destrói a paixão.

Quando decidi voltar a comprar uma mota percebi que aquilo de que sentia falta não era da velocidade. Era dessa estranha sensação de liberdade que nasce quando deixamos de estar separados do mundo. Era voltar a sentir o vento na cara, reconhecer o cheiro dos campos, esperar pelo nascer do sol numa estrada quase vazia ou deixar que o pôr do sol acompanhasse os últimos quilómetros de uma viagem. Era recuperar uma relação com a paisagem que a modernidade, em nome do conforto, foi lentamente apagando.

Durante milhares de anos, a velocidade do mundo foi a velocidade de um cavalo. Reis, peregrinos, cavaleiros, mercadores e mensageiros percorreram a Europa desta forma. Talvez por isso o nosso corpo continue a reconhecer intuitivamente aquilo que acontece quando subimos para uma mota. Os automóveis deram-nos conforto; as motas devolveram-nos o caminho.

Talvez seja por isso que subir para uma mota tem algo de medieval. Porque, por breves instantes, voltamos a viajar como os nossos antepassados viajaram durante séculos: expostos ao mundo, atentos à paisagem e conscientes de que a liberdade nunca se mede apenas pela velocidade, mas pela intensidade com que sentimos cada quilómetro.

Autor: Paulo Freitas do Amaral, Professor e Autor