A importância da prevenção na doença renal crónica

Mónica Reis, Coordenadora do Núcleo de Estudos da Diabetes Mellitus da SPMI
Mónica Reis, Coordenadora do Núcleo de Estudos da Diabetes Mellitus da SPMI. Foto: DR

O dia 12 de março marca o Dia Mundial do Rim, não aprecio o termo “celebrar” porque a necessidade de recordar o Rim neste dia deve-se ao facto, da doença renal crónica (DRC) ter um impacto particularmente negativo na saúde da população mundial. Logo “celebrar” uma doença não me parece apropriado. A importância deste dia reveste-se no relembrar a DRC e na relevância da prevenção e da melhoria da qualidade de vida das pessoas com a mesma.

Quando se fala em DRC pensa-se em diabetes. E de fato, a diabetes é uma das principais causas de doença renal crónica, sendo que 30 a 40% da população diabética mundial apresenta DRC, de acordo com os dados da Federação Internacional da Diabetes (IDF). Portugal apresentou uma prevalência de diabetes, em 2025, de 14.2% da população, o que representa cerca de 1.2 milhões de portugueses com diabetes. Considerando estes dados estima-se que a nefropatia diabética atinja cerca de 480 mil portugueses.

Esta relação de proximidade entre a diabetes e a doença renal crónica é estabelecida de forma mútua.

A hiperglicemia, presente na diabetes, causa alterações nos vasos sanguíneos que conduzem a lesões micro e macro vasculares extensas que são responsáveis pelas principais complicações associadas à diabetes tais como a nefropatia, a retinopatia, a neuropatia, e ainda pelo aumento do risco cardiovascular com um aumento da incidência de enfarte agudo do miocárdio (EAM) e acidente vascular cerebral (AVC) significativo. Por outro lado, a DRC induz uma maior dificuldade no controle da glicemia, além de aumentar o risco cardiovascular, per si. Assim verifica-se uma incidência aumentada de eventos agudos (EAM e AVC) e consequentemente uma redução significativa da qualidade de vida da pessoa com nefropatia diabética (ND).

A prevalência da ND aumenta com a idade, com o tempo de duração da diabetes bem como com a exposição a um inadequado controle metabólico ao longo do tempo. A lesão renal resulta diretamente da hiperglicemia mas também a hipertensão arterial, a dislipidemia ou o tabagismo contribuem para exacerbação e velocidade de declínio da função renal.

Clinicamente a doença manifesta-se por um cansaço de agravamento progressivo, falta de apetite, náuseas ou vómitos, aumento da frequência urinária, sangue na urina, edema periférico e peri-ocular, alteração da tensão arterial e hálito cetónico, já numa fase mais avançada. A primeira manifestação é a perda de albumina na urina.

O diagnóstico deve ser realizado o mais precocemente possível por forma a prevenir o avanço da doença e a reduzir a gravidade da mesma. O diagnóstico é baseado no valor da creatinina sérica e da relação albumina/creatinina (RAC) na urina. A ecografia renal permite avaliar a estrutura do rim que também é afetada pela DRC, pelo que também tem um papel diagnóstico importante.

A DRC divide-se em 5 estadios de gravidade sendo que o estádio terminal carece de substituição da função do rim por diálise ou por transplante de órgão, com custo económicos, sociais e familiares para os doentes e para a comunidade em geral, muito elevados.

A nível mundial, apenas 27 a 53% da população com DRC tem acesso a técnicas de substituição renal (diálise), sendo este acesso muito escasso nos países de baixo desenvolvimento económico, onde a sua prevalência é mais elevada. Sendo uma causa de morte frequente nestes países.

A DRC e a tensão arterial também se apresentam com uma relação de implicação mútua. As alterações da tensão arterial são consequência e também causa de DRC pelo que é fundamental o seu controle.

Atualmente o diagnóstico precoce e tratamento da doença renal reveste-se de particular importância, se há alguns anos apenas se baseava no controle da glicemia e da tensão arterial, hoje existem vários fármacos que atuam diretamente e têm efeito benéfico na preservação e na redução do declínio da função renal.

No entanto, apesar de toda a melhoria na terapêutica disponível para a DRC, a melhor forma de a evitar, contínua a ser a prevenção.

Prevenir e controlar, o mais precocemente possível, a diabetes, a tensão arterial, a dislipidémia e o tabagismo, manter hábitos de vida saudáveis continuam a ser a estratégia mais eficaz na redução da doença renal. A consequência é uma redução do risco cardiovascular associado e uma melhoria da qualidade de vida destas pessoas.

Autora: Mónica Reis, Médica, Coordenadora do Núcleo de Estudos da Diabetes Mellitus da SPMI