
O Dia Mundial da Saúde surge como um momento de reflexão sobre os grandes desafios que afetam a humanidade. Fala-se de doenças cardiovasculares, oncológicas, pandemias respiratórias e saúde mental. No entanto, há uma condição que afeta milhões de pessoas diariamente, limitando vidas: as dores da coluna. Para um cirurgião de coluna, esta é, sem dúvida, uma das maiores epidemias silenciosas do nosso tempo.
Chamo-lhe silenciosa não pela ausência de dor, mas porque se instala de forma gradual e é muitas vezes normalizada pela sociedade. Frases como “é só uma dor nas costas” atrasam a prevenção e o tratamento.
O perfil dos doentes mudou. Se, há cerca de duas décadas, as patologias da coluna estavam maioritariamente associadas ao envelhecimento ou a trabalhos fisicamente exigentes, hoje vemos jovens adultos, e até adolescentes, com queixas persistentes. Esta mudança é o reflexo direto do estilo de vida contemporâneo.
A coluna vertebral é uma estrutura complexa, que sustenta o corpo, protege a medula e os nervos, e permite movimento. Quando submetida a tensões constantes, desequilíbrios musculares ou posturas incorretas, torna-se vulnerável a uma série de problemas, desde desconfortos leves até condições crónicas incapacitantes.
Muitas pessoas ignoram os sinais iniciais. Pequenos desconfortos são tratados com analgésicos, sem procurar a causa, o que favorece a cronificação da dor, tornando o tratamento mais difícil, prolongado e com menor resposta clínica.
Vivemos mais sentados do que nunca e muitas vezes em postura incorreta. A coluna vertebral, em particular, sofre com esta realidade, existindo uma redução da nutrição dos discos intervertebrais, enfraquecimento da musculatura de suporte e aumento da sobrecarga sobre estruturas passivas.
Mas não é apenas a falta de movimento que preocupa, como também a forma como nos movemos e posicionamos. O sedentarismo, cadeiras inadequadas, mesas mal ajustadas e ausência de pausas agravam o problema. Mesmo em ambientes com consciência ergonómica, hábitos incorretos persistem.
O impacto da tecnologia é particularmente evidente. O uso constante de smartphones criou um padrão de sobrecarga cervical, em que a inclinação da cabeça para olhar para baixo aumenta em várias vezes o peso efetivo suportado pela coluna. Este fenómeno, referido como “text neck”, leva a dores, rigidez e até alterações estruturais na coluna cervical ao longo do tempo.
Além dos fatores físicos, as dores de coluna também têm uma componente psicológica relevante. O stress, a ansiedade e a depressão podem manifestar-se fisicamente através de tensão muscular e dor.
Um dos grandes desafios no tratamento das dores na coluna é a sua natureza multifatorial, resultando de uma combinação de fatores: mecânicos, musculares, degenerativos, emocionais e até sociais. Apesar dos avanços tecnológicos, a cirurgia continua a ser indicada apenas para uma minoria dos casos, tais como défices neurológicos, instabilidade estrutural ou progressão da dor sem resposta a outras terapêuticas.
No entanto, existe muitas vezes a perceção errada de que a cirurgia é uma solução rápida e definitiva. A maioria das situações não precisam de cirurgia, mas sim de: tempo, reabilitação, mudança de hábitos/estilo de vida e envolvimento ativo dos pacientes. Aqui encontramos um dos maiores obstáculos, uma vez que a mudança de comportamentos não é fácil.
Do ponto de vista económico, esta epidemia representa um custo significativo para os sistemas de saúde e para a atividade laboral, com impacto significativo no absentismo, redução de produtividade e custos com tratamentos.
É fundamental falar na prevenção como meta-chave. No caso da coluna vertebral, a prevenção está ao alcance de todos. Atividade física regular, fortalecimento da musculatura, pausas no trabalho, ergonomia adequada no local do trabalho, sono de qualidade e controle do peso são medidas simples e eficazes para proteger a coluna.
Como cirurgiões de coluna, temos consciência de que a nossa intervenção técnica ocorre, muitas vezes, numa fase avançada do problema, em que a prevenção já falhou. A cirurgia pode resolver uma parte da questão, aliviando a dor, restaurando a função e corrigindo o desafinamento estrutural, mas não muda os hábitos que levaram ao problema.
O Dia Mundial da Saúde lembra-nos de que a saúde não é apenas a ausência de doença, mas um estado de bem-estar físico, mental e social. A epidemia silenciosa das dores na coluna exige uma abordagem multifacetada, envolvendo profissionais de saúde, instituições, empresas e sociedade.
Não espere pela dor para cuidar da sua coluna. Invista na prevenção. Movimente-se. Ajuste a sua postura.
Autor: Lino Vieira da Fonseca, Neurocirurgião do Centro de Responsabilidade Integrada (CRI) da Coluna, ULS São José, Lusíadas Saúde, membro da direção da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral (SPPCV).













