A obesidade é uma doença crónica associada a muitas comorbidades, incluindo o cancro. Os especialistas relacionam fortemente treze tipos de cancro à obesidade, incluindo adenocarcinoma esofágico, cárdia gástrica, cancros do cólon e reto, do fígado, da vesícula biliar, do pâncreas, da mama pós-menopausa, do endométrio ou do útero e cancro do ovário, carcinoma de células renais, meningioma, cancro da tireoide e mieloma múltiplo.
Os especialistas consideram que a obesidade aumente o risco de cancro por meio de múltiplos mecanismos inter-relacionados, incluindo desregulação hormonal, inflamação crónica e desequilíbrio de adipocinas.
O excesso de peso corporal tem sido proposto como o segundo maior fator de risco evitável para o cancro, depois do tabagismo, tanto em homens como em mulheres. Agora, com o desenvolvimento de medicamentos antiobesidade (MAOs) altamente eficazes, novas vias para o tratamento médico da obesidade estão a surgir.
Um estudo liderado Cleveland Clinic e publicado na revista “Obesity” refere que a perda de peso após a cirurgia bariátrica tem sido associada a um risco reduzido de cancro. No entanto, estudos observacionais que examinam a associação entre cancro e perda de peso não cirúrgica têm sido de pequena escala e apresentam resultados conflituantes, que os investigadores associam estatística insuficiente ou ao curto período de acompanhamento
Estudos prospetivos que acompanham a perda de peso não cirúrgica por meio de métodos convencionais, como a modificação do estilo de vida, ao longo de longos períodos são desafiadores, pois exigem acompanhamento prolongado, recursos substanciais e alta adesão do paciente.
Em face do contexto a preocupação dos investigadores foi investigar em que medida o risco de cancro relacionado à obesidade pode ser reduzido pela perda de peso no mundo real numa população de pacientes provenientes de um grande sistema integrado de saúde.
Os investigadores observaram significância estatística em diferentes momentos para carcinoma de células renais, mieloma múltiplo, cancro do esôfago e cancro do endométrio, bem como em outros tipos de cancro, incluindo melanoma e outras neoplasias malignas da pele, neoplasias malignas de tecidos linfoides, hematopoiéticos e relacionados, neoplasias malignas do trato urinário, órgãos respiratórios e intratorácicos, mesotélio e tecidos moles, órgãos genitais masculinos, órgãos genitais femininos, olhos, cérebro e outras partes do sistema nervoso central e órgãos digestivos.
Para os investigadores vários mecanismos podem estar subjacentes à ligação entre obesidade e desenvolvimento de cancro, e esses mecanismos podem diferir entre os tipos de cancro e incluem impactos na sensibilidade à insulina e no microambiente imunológico. É conhecido que o aumento da massa de tecido adiposo interrompe a produção de adiponectina, resistina, leptina e ácidos gordos livres, contribuindo para hiperinsulinemia e resistência à insulina, ambas implicadas na patogénese do cancro.
Os investigadores referem que o aumento da ligação da insulina aos recetores de insulina demonstrou promover diretamente o crescimento tumoral de células de cancro gástrico e tem implicações para o gestão clínica de pacientes com obesidade, diabetes e cancro. A leptina também estimula a proliferação do epitélio do cólon e inibe a apoptose. Níveis séricos elevados associados à obesidade também foram relacionados à progressão do cancro gástrico.
Os investigadores observaram uma redução do risco de cancro do endométrio e de carcinoma de células renais com a perda de peso em três e dois intervalos de acompanhamento, respetivamente. A obesidade desregula as hormonas sexuais através do aumento da resistência à insulina.
Estudos anteriores in vitro e in vivo mostram que as desregulações hormonais estão associadas à modificação do risco de cancro da mama, cancro do endométrio e carcinoma de células renais. Os investigadores escreveram que a restauração da vigilância imunológica e da função das células T, bem como a normalização das adipocinas após a perda de peso, são particularmente relevantes para cancros com forte influência hormonal (por exemplo, cancro da mama, cancro do endométrio) e para os com forte envolvimento imunológico (por exemplo, cancro colorretal).
No estudo os investigadores observaram um aumento do risco de mieloma múltiplo com o ganho de peso. O que para os investigadores está de acordo com relatos anteriores de acúmular de adipócitos na medula óssea, levando a alterações no microambiente que promovem a progressão do mieloma múltiplo. Embora estudos pré-clínicos tenham relatado aumento do risco de cancro da mama devido à disrupção das harmonias sexuais, o risco de cancro da mama não foi associado à alteração de peso atual estudo.
Os investigadores concluíram que a perda de peso foi associada a um risco reduzido de desenvolver cancros relacionados à obesidade e todos os outros tipos de cancro.
Assim, os resultados do estudo reforçam as crescentes evidências de que o controlo do peso pode desempenhar um papel importante na prevenção do cancro. Embora a obesidade seja um fator de risco bem estabelecido para diversos tipos de cancro, o novo estudo sugere que uma perda de peso modesta e alcançável pode oferecer benefícios significativos para a saúde, além de auxiliar no tratamento de doenças metabólicas, incluindo uma possível redução no risco de cancro.














