Bactérias geneticamente modificadas mostram ser um recurso eficaz no tratamento de cancros difíceis

Bactérias geneticamente modificadas mostram ser um recurso eficaz no tratamento de cancros difíceis
Bactérias geneticamente modificadas mostram ser um recurso eficaz no tratamento de cancros difíceis

Os tumores cancerígenos são mestres do disfarce, escapam ao radar do sistema imunológico humano, escondendo-se para evitar serem detetados enquanto crescem e causam estragos na saúde do hospedeiro. No entanto, quando bactérias oncolíticas (que destroem o cancro) são injetadas num tumor, o sistema imunológico é alertado sobre as bactérias invasoras e destrói-as e em simultâneo ataca o tumor.

Os investigadores da Universidade Johns Hopkins, EUA, estão concluir com sucesso os ensaios clínicos, com as bactérias oncolíticas, e a investigadora Kaitlin Dailey, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Rhode Island, está expandir os estudos para atingir tumores de difícil ou impossível acesso, especialmente os associados ao cancro do pâncreas, que é um dos mais letais.

A equipa da investigadora Kaitlin Dailey está a trabalhar com o microrganismo Clostridium novyi-NonToxic, reestruturando a bactéria para suprir a toxidade, usando uma plataforma inédita de biologia sintética e de engenharia para edição genética direcionada. Assim, permite que a bactéria seja injetada na corrente sanguínea sem causar uma infeção generalizada ou sepse, dando a possibilidade de se chegar a tumores de difícil acesso e até mesmo a cancro metastático, independentemente de sua localização no corpo.

“Ao usar uma bactéria como mecanismo terapêutico, podemos reprogramar o sistema imunológico para que não apenas consigamos atingir o tumor diretamente, mas também tenhamos uma vacina eficaz contra a recorrência”, referiu a investigadora Kaitlin Dailey.

A investigadora acrescentou: “Se pudermos atingir e dosar um tumor por meio de inoculação intravenosa, teremos a oportunidade de atingir não apenas o tumor primário, mas também a metástase. Mesmo que não consigamos levar a terapia a uma metástase, ou se houver um tumor em estágio inicial de desenvolvimento, teremos reprogramado o sistema imunológico para o reconhecer e podemos provocar a sua destruição em estágios muito iniciais.”

Nos estudos em ratos a investigadora obteve sucesso no tratamento do cancro pancreático. Agora, o próximo passo é ajudar a bactéria a circular pela corrente sanguínea sem que o sistema imunológico a reconheça e a destrua antes que ela atinja o tumor alvo. Para isso, a equipa de Kaitlin Dailey está a trabalhar numa plataforma de engenharia genética para modificar a bactéria e torná-la invisível ao sistema imunológico até que chegue ao seu alvo.

“É um conceito muito comum na área farmacêutica: como aumentar o tempo de circulação do nosso medicamento?”, esclareceu a investigadora, e referiu: “Queremos aumentar com segurança o tempo de circulação e, consequentemente, a quantidade de bactérias que chegam ao local do tumor. É nisso que estamos a concentrar agora os esforços, porque essa é a maneira mais direta de aumentar a eficácia terapêutica.”

O trabalho inovador de Kaitlin Dailey e da sua equipa no desenvolvimento e na translação clínica da Clostridium novyi-NonToxic como uma bactéria oncolítica representa uma abordagem transformadora para o tratamento de cancros metastáticos, incluindo o cancro pancreático e outros tumores sólidos, e mostra o potencial da biologia sintética translacional em oncologia.

Depois de demonstrar que consegue modificar a bactéria e ainda manter as suas capacidades anticancerígenas, a investigadora indicou que espera um dia avançar para ensaios clínicos em humanos.

“Pode parecer ridículo, mas estou realmente tentando curar o cancro. Há muitos passos ao longo do caminho, mas todos eles estão sob a égide do impacto no paciente”, disse Kaitlin Dailey, e lembrou que, no passado, auxiliou em autópsias de pacientes que morreram de cancro.

“Sabe que o cancro é ruim, mas aí vê que os pacientes deixaram de ter diafragma porque o tumor tomou conta de todo o abdómen, que deixaram de ter fígado e isso tornou-os cirróticos. Nada nos prepara para estas experiências. E essa é a minha luz guia: é por essas pessoas. Eu não pude ajudá-las, mas posso ajudar a próxima. O objetivo e a missão do nosso laboratório é levar terapias aos pacientes num esforço para curar o cancro”, assumiu Kaitlin Dailey.