Orlando Pinto: uma história de emigração, empreendedorismo e compromisso com a diáspora

Daniel Bastos, Historiador e Escritor
Daniel Bastos, Historiador e Escritor. Foto: DR

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua extraordinária capacidade de trabalho, iniciativa e empreendedorismo. Ao longo de gerações, homens e mulheres que partiram de Portugal em busca de melhores condições de vida acabaram por construir, nos países de acolhimento, empresas de sucesso e percursos de reconhecido mérito, assumindo responsabilidades de relevo nas áreas económica, social, cultural e, tantas vezes, política.

Entre esses exemplos, cada vez mais reconhecidos como uma importante mais-valia estratégica para a afirmação internacional do país, destaca-se o percurso de Orlando Pinto, um dos empresários mais ativos e beneméritos da comunidade portuguesa no Luxemburgo.

No Grão-Ducado, onde os portugueses constituem cerca de 15% da população e representam, desde a década de 1980, a principal comunidade estrangeira, a presença portuguesa adquiriu uma dimensão particularmente relevante. O Luxemburgo tornou-se, assim, um dos mais expressivos espaços de afirmação contemporânea da emigração portuguesa na Europa, não apenas pela sua importância demográfica, mas também pelo contributo económico, empresarial, cultural e social dos portugueses que ali fizeram as suas vidas.

Natural de Adenodeiro, pequena aldeia do concelho de Castro Daire, no distrito de Viseu, Orlando Pinto emigrou para o Luxemburgo em 1982, com apenas 22 anos, movido pelo desejo, comum a tantos emigrantes portugueses da sua geração, de procurar melhores condições de vida. Levava consigo a experiência de uma infância e adolescência marcadas pelo trabalho agrícola e fabril, num contexto familiar humilde, mas também pelo conhecimento precoce das dificuldades e incertezas associadas à emigração.

O seu próprio pai havia emigrado para o Canadá e, numa época em que na aldeia não existiam eletricidade, telefone ou sequer correio regular, a família chegou a permanecer meses sem saber do seu paradeiro. É uma memória que ajuda a compreender a dureza de uma emigração feita, muitas vezes, com poucos recursos, mas sustentada por uma enorme esperança no futuro.

No Luxemburgo, Orlando Pinto começou a construir, passo a passo, um percurso que haveria de transformar profundamente a sua vida. Depois de conhecer e casar com a mãe das suas filhas, iniciou a sua atividade profissional numa empresa de construção civil. Durante cerca de duas décadas, exerceu diferentes funções, começando como pedreiro e progredindo até chefe de equipa e responsável de obra.

Foi nesse longo percurso profissional, feito de trabalho, aprendizagem e experiência acumulada, que encontrou os alicerces para concretizar um projeto próprio. Em 2002, no início do século XXI, decidiu criar a Sopinor, então com apenas um camião e quatro pedreiros.

Mais de duas décadas depois, aquela pequena empresa transformou-se num dos mais relevantes grupos empresariais do setor da construção e das obras públicas no Luxemburgo. Sediado em Schifflange, no cantão de Esch-sur-Alzette, o grupo SOPINOR reúne atualmente diversas entidades, entre as quais a SOPINOR Sarl, a SOPINOR Constructions, a SOPINOR Concassage, a AP Construction, a SopiConcept e a SopiTherme, proporcionando uma resposta integrada ao setor da construção, desde a conceção à execução de projetos.

O crescimento da empresa acompanha, de resto, a própria dimensão do percurso do seu fundador. Aquilo que começou com quatro trabalhadores é hoje uma estrutura empresarial com cerca de 350 colaboradores, maioritariamente portugueses, dezenas de estaleiros em funcionamento e uma faturação anual superior a 50 milhões de euros. Entre os projetos que contribuíram para a notoriedade da SOPINOR encontra-se uma das obras mais emblemáticas da modernização do Luxemburgo: o tram, o metro de superfície da capital do Grão-Ducado.

A participação da SOPINOR na construção desta infraestrutura, que marcou profundamente a paisagem urbana luxemburguesa, valeu a Orlando Pinto o epíteto de “Senhor Tram”, expressão que traduz não apenas a dimensão do projeto, mas também o reconhecimento alcançado pelo empresário no setor da construção.

A história da SOPINOR é, simultaneamente, uma história de empreendedorismo e uma história de família. Na empresa trabalham também as filhas de Orlando Pinto, Sylvie, jurista, e Stephanie, ligada à direção, bem como outros familiares, entre os quais a sua irmã, responsável pelos recursos humanos, e o sobrinho Mário, supervisor de obras. A presença de várias gerações da família na estrutura empresarial revela uma dimensão que ultrapassa a mera gestão de um negócio: a transmissão de responsabilidades, valores e de uma cultura de trabalho construída ao longo de décadas.

Uma das dimensões mais marcantes do percurso de Orlando Pinto é a forma como tem colocado o seu sucesso ao serviço da comunidade. Apaixonado pelo futebol, tem apoiado diversas equipas no Luxemburgo e, nos últimos dois anos, assumiu a presidência do Red Black Pfaffenthal, clube onde também treina o seu filho mais novo e que acolhe as escolinhas luxemburguesas do Sport Lisboa e Benfica.

A sua dimensão solidária revelou-se igualmente quando, na sequência dos graves danos provocados pela tempestade Kristin na região Centro, particularmente no distrito de Leiria, transformou um armazém da sede da empresa, em Schifflange, num centro de recolha de materiais de construção destinados às populações afetadas em Portugal.

Foi este percurso de sucesso, compromisso e solidariedade que esteve na origem da Comenda do Mérito Empresarial que lhe foi atribuída pelo Presidente da República, António José Seguro, no âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, cujo arranque oficial decorreu este ano no Luxemburgo. A distinção reconheceu, nas palavras do mais alto magistrado da Nação, a “singularidade de um percurso profissional do maior êxito e o extraordinário espírito de um homem fora do comum”.

Autor: Daniel Bastos, Historiador e Escritor