Pergunte a um português quantas línguas se falam em Portugal. Na melhor das hipóteses, ouvirá: o português e o mirandês. Poucos juntarão uma terceira, e menos ainda saberão que ela vive no Alentejo, colada à fronteira, numa vila com menos de dois mil habitantes. Chama-se barranquenho, fala-se em Barrancos, e acaba de receber aquilo que só as línguas a sério costumam ter: uma gramática.
Portugueses de manhã, espanhóis à noite
Barrancos fica no Baixo Alentejo, encostada a Espanha, entre a Extremadura e a Andaluzia. Durante séculos foi território disputado e isolado, e desse isolamento nasceu uma maneira própria de falar. Diz-se, com graça e alguma verdade, que os barranquenhos são “portugueses de manhã e espanhóis à noite”.
Os linguistas descrevem o barranquenho como uma língua mista, ou de contacto: resulta do encontro entre o português do sul e o castelhano do sul. Num estudo sobre o pretérito perfeito composto, por exemplo, concluiu-se que o auxiliar e o particípio são portugueses, mas os valores da construção são os do espanhol. Ouça-se uma frase como “Me gohtaba ehta linguaji barranquenha” (gostava desta língua barranquenha): o “s” aspirado à andaluza, o pronome colocado à espanhola, palavras que qualquer português reconhece. Não é uma mistura ao acaso. Tem regras, e tem falantes que a têm como língua materna.
Língua ou dialeto?
A discussão é velha. Para uns, é um dialeto do português com muito castelhano à mistura. Para os investigadores que mais o estudaram, como Maria Victoria Navas e Maria Filomena Gonçalves, deve ser tratado como língua de contacto, minoritária e ameaçada. O argumento é simples: a variação é própria de qualquer língua natural, e o barranquenho é estável e é, para a população, a língua da casa, da rua e da festa.
Não é uma descoberta de agora. Leite de Vasconcelos dedicou-lhe a Filologia Barranquenha, e os trabalhos de Navas descrevem-no desde os anos 90. Em 2008, a Câmara de Barrancos classificou-o como Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal.
A lei e a gramática
Em novembro de 2021, a Assembleia da República aprovou por unanimidade um diploma que reconhece o direito a cultivar e promover o barranquenho como veículo do património cultural imaterial e reforço da identidade de Barrancos. Foi depois promulgado pelo Presidente da República.
Convém não exagerar: o barranquenho não é língua oficial, ao contrário do mirandês, reconhecido em 1998 (Lei n.º 7/99). Mas a lei abre portas concretas: o direito à aprendizagem nas escolas, nos termos a regulamentar pelo Ministério da Educação, e a possibilidade de as instituições públicas do concelho emitirem documentos com uma versão em barranquenho.
Faltava o instrumento. Em 2025, a Universidade de Évora publicou a Gramática Básica de Barranquenho, de Maria Filomena Gonçalves, María Victoria Navas e Victor M. Diogo Correia, fruto do programa que a Cátedra UNESCO de Évora desenvolve com o município desde 2017. Em 2024 já tinha havido oficinas de escrita em barranquenho com alunos do 7.º ao 9.º ano da escola de Barrancos.
O que isto nos diz sobre Portugal
Gostamos de imaginar o país como um bloco linguístico homogéneo, e a História nunca confirmou essa imagem. As fronteiras políticas e as linguísticas raramente coincidiram, e Barrancos é a prova viva. Uma língua sem tradição escrita, falada por uma população envelhecida e pressionada pelo português padrão e pelo espanhol, está em risco. Dar-lhe uma gramática é fixar regras, criar material de ensino e dizer aos mais novos que aquilo que falam em casa merece ser escrito.
O Estado fez bem em reconhecer esta riqueza. Falta agora que o direito inscrito na lei chegue de facto à sala de aula, com regulamentação, professores e materiais. Sem isso, o barranquenho corre o risco de ficar como objeto de estudo universitário, quando devia continuar a ouvir-se, vivo, nas ruas de Barrancos.
Autor: Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor
Fontes: Cátedra UNESCO, Universidade de Évora; Gramática Básica de Barranquenho (Univ. de Évora, 2025); Observador (promulgação do diploma, dezembro de 2021); Lusa/DN; estudos de Navas, Gonçalves, Clements e Garrett















